A Alemanha implementou no domingo (14) rígidos controles nas suas fronteiras com a República Tcheca e a região austríaca de Tirol para tentar deter a propagação das variantes mais contagiosas do novo coronavírus. As novas restrições limitam a entrada a cidadãos e residentes alemães, caminhoneiros, trabalhadores do transporte e de serviços de saúde, entre outros.
Essas pessoas precisam se registrar, pela internet, e mostrar resultado negativo de teste. As taxas de infecção na Alemanha têm diminuído nas últimas semanas, mas as autoridades estão preocupadas com o possível impacto das variantes registradas no Reino Unido e África do Sul.
O governador da Baviera, Markus Soeder, disse que não levar a sério novas variantes pode trazer “consequências significativas”. Segundo ele, bairros da República Tcheca registraram taxas de infecção elevadas.
Extremismo
Em 2017, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (Alternative für Deutschland, AfD) estreou no Parlamento com 94 dos 709 assentos, a terceira maior bancada no Bundestag.
O desempenho nas urnas inaugurava um capítulo novo para a sigla, que quatro anos antes fracassara em conseguir 5% dos votos e romper a cláusula de barreira para que tivesse representação no legislativo.
Entre uma eleição e outra, o partido conseguiu capitalizar a rejeição de parte do eleitorado às mudanças na política migratória do país desde 2015. Diante do discurso baseado na xenofobia e na intolerância que acabou vocalizando a raiva e frustração de uma parcela da população alemã, a oposição temia estar diante de uma nova ascensão da extrema direita no país.
Entre 2019 e 2020, as intenções de voto no AfD caíram pelo menos cinco pontos percentuais, de cerca de 15% para 10%, conforme o levantamento mais recente do instituto de pesquisa Infratest Dimap, de fevereiro.
A explicação, para os cientistas políticos ouvidos passa tanto pela postura do partido e suas questões internas quanto pela resposta dada pelo governo à crise sanitária.
A popularidade da primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, que flutuou no decorrer de seus quase 16 anos no poder, atingiu nível recorde em abril de 2020, quando mais de 90% dos eleitores apoiavam as medidas de distanciamento social, conforme sondagem do Infratest Dimap.
Conhecida pelos discursos monótonos e pouco incisivos, Merkel mudou o tom quando o coronavírus chegou à Alemanha. Formada em física e com doutorado em química quântica, ela entendeu a importância de tentar barrar a proliferação do vírus entre a população.
Os ministros-presidentes dos Estados federados (algo como os governadores no Brasil), contudo, estavam reticentes com o custo político de decretar lockdowns. A chanceler precisava de apoio popular para convencê-los, diz Jasmin Riedl, professora de ciências políticas da Universidade das Forças Armadas (Bundeswehr), em Munique.
No dia 18 de março, ela fez um um pronunciamento de 12 minutos na TV e explicou de maneira professoral o que estava acontecendo e o que precisava ser feito.
“É sério. Levem a sério”, afirmou, para depois emendar que aquele seria provavelmente o maior desafio do país desde a Segunda Guerra.
“Merkel é uma cientista. Ele entende os números, consegue analisá-los. Ela sabe que não existe verdade absoluta, que é preciso fazer ajustes (nas políticas) se a Medicina apresenta fatos novos. Isso foi importante”, diz Ursula Münch, professora da Universidade de Munique e diretora da Academia de Educação Política em Tutzing, na Baviera.
Riedl acrescenta que os alemães entenderam desde cedo, olhando para vizinhos como Itália, Espanha e França, que a situação era grave — o que diminuiu o apelo de eventuais discursos negacionistas ou anti-ciência.
Em paralelo, o Alternativa para Alemanha (AfD) não apresentou boas respostas para a crise, chegando, muitas vezes, a ser omisso, diz Riedl.
Nesse sentido, ela cita a discussão no Parlamento sobre o pacote emergencial contra a crise. “Foi uma tramitação acelerada, a mais rápida que a Alemanha já tinha visto, mais até do que o pacote contra a crise financeira (de 2008), e o AfD esteve em uma posição passiva (durante os debates).”
“A maioria dos alemães os vê como uma ameaça à saúde, à sociedade e à economia também”, acrescenta Münch.
