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A amputação da cidadania

Muitos fatores têm trazido a importância da leitura como um tema que merece atenção. Não apenas porque os livros ampliam nosso conhecimento ou enriquecem o vocabulário, mas porque há algo mais profundo em jogo. Ler é um exercício de liberdade. E uma sociedade que perde o hábito da leitura começa, silenciosamente, a perder também a capacidade de exercer plenamente a cidadania.

Fernando Bonete, professor universitário e divulgador cultural espanhol, definiu recentemente a leitura como um dos atos mais contemplativos que existem, comparável à oração. Sua preocupação, porém, não está apenas na quantidade de livros, mas naquilo que estamos fazendo com nossa capacidade de atenção.

Bonete percebe entre seus alunos uma deterioração da compreensão de textos e das habilidades de comunicação escrita e oral. O desafio educacional, diz ele, continua sendo fazer com que os jovens “saibam escrever, saibam falar e saibam pensar por si mesmos”.

Uma democracia não depende apenas de eleições, instituições e leis. Depende da qualidade intelectual de seus cidadãos. Para exercer plenamente a cidadania, é preciso compreender minimamente o mundo no qual se vive, distinguir fato de opinião, reconhecer interesses, comparar argumentos, desconfiar de soluções excessivamente simples e, sobretudo, possuir autonomia para formar o próprio julgamento.

O problema é que construímos uma sociedade que oferece informação em abundância e conhecimento em escassez. Nunca tivemos acesso tão rápido a tantos conteúdos. Carregamos no bolso bibliotecas inteiras, jornais do mundo todo e, agora, máquinas capazes de responder em segundos a quase qualquer pergunta.

A leitura profunda obriga permanecer diante de uma ideia e acompanhar um raciocínio. Também implica encontrar uma afirmação com a qual discordamos e continuar lendo. Voltar algumas páginas. Comparar. Duvidar. Mudar de opinião. Um livro não nos oferece apenas respostas. Ele treina nossa capacidade de conviver com a complexidade.

As redes sociais operam frequentemente na direção contrária. Premiam velocidade, simplificação, indignação e certezas instantâneas. O algoritmo não precisa que compreendamos o mundo; basta que continuemos olhando para a tela.

É nesse ambiente que a ausência de leitura deixa de ser apenas uma deficiência cultural e passa a representar uma amputação da cidadania.

Quem não compreende adequadamente um texto terá dificuldade para compreender um contrato, uma proposta econômica, uma decisão judicial, um programa de governo ou uma notícia. Quem possui pouco repertório histórico terá dificuldade para perceber quando velhas ideias reaparecem vestidas de novidade. Quem não aprendeu a confrontar argumentos estará mais exposto aos slogans. E quem não desenvolveu pensamento crítico será presa mais fácil daqueles que oferecem inimigos convenientes e respostas simples para problemas complexos.

Isso não significa que pessoas instruídas sejam imunes à manipulação. Não são. Todos carregamos preconceitos, paixões e vieses. A educação não elimina essas vulnerabilidades. Mas fornece instrumentos para reconhecê-las, confrontá-las e, eventualmente, corrigi-las.

A inteligência artificial acrescenta uma nova dimensão ao problema. Ela reduz extraordinariamente o tempo necessário para encontrar uma resposta. Mas não reduz o tempo necessário para adquirir conhecimento. Podemos perguntar a uma máquina sobre história, economia, filosofia ou política e receber uma explicação impecavelmente organizada. O perigo começa quando confundimos a clareza da resposta com a compreensão de quem a recebeu.

Se deixarmos que os outros, tais como pessoas, algoritmos ou máquinas, pensem permanentemente por nós, quem sabe descubramos tarde demais que terceirizamos não apenas nosso esforço intelectual, mas parte de nossa liberdade.

Uma sociedade de leitores não será necessariamente uma sociedade que pensa da mesma maneira. Felizmente. Será uma sociedade em que mais pessoas possuirão instrumentos para pensar por conta própria. E poucas coisas são tão essenciais à democracia quanto cidadãos capazes de fazê-lo.

(Instagram: @edsonbundchen)

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