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A arte de voltar para casa

Outro dia, ao reler trechos da Odisseia de Homero, deparei-me novamente com a saga de Ulisses, vindo da guerra de Troia e tentando retornar à sua pequena Ítaca. No caminho, após naufrágios, perdas e anos de errância, ele é conduzido à ilha da ninfa Calipso. Ali encontra algo que qualquer homem moderno talvez julgasse definitivo: conforto, beleza, abundância e, mais do que isso, a promessa da imortalidade. Calipso lhe oferece permanecer ao seu lado para sempre, jovem, protegido e livre das dores do mundo.

Ulisses recusa.

A recusa sempre me pareceu estranha quando li essa passagem pela primeira vez. Por que alguém abandonaria uma vida perfeita? A resposta não está no heroísmo, mas numa intuição profundamente humana: permanecer ali significaria deixar de ser quem ele era. Na ilha não havia passado compartilhado, nem responsabilidade, nem escolhas difíceis. Não havia memória nem futuro verdadeiro. Era uma existência sem risco e, justamente por isso, sem densidade.

Ulisses prefere voltar para casa, envelhecer, reencontrar Penélope, reconstruir vínculos imperfeitos e retomar o lugar que lhe pertence no mundo dos mortais. Ele escolhe o limite em vez da eternidade. Escolhe uma vida real, não uma vida confortável. Percebe que viver bem não é escapar da condição humana, mas habitá-la por inteiro.

Talvez nunca essa antiga narrativa tenha sido tão atual.

Vivemos hoje numa espécie de ilha de Calipso digital. As redes sociais oferecem versões editadas da felicidade: corpos sem falhas, opiniões instantâneas, sucesso contínuo e reconhecimento permanente. A cada rolagem de tela surge a promessa silenciosa de uma vida melhor, mais admirada, mais desejada. Não se trata apenas de consumo de produtos, mas de consumo de identidades. Somos incentivados a parecer felizes antes mesmo de perguntar se estamos vivendo bem.

Nesse ambiente, o valor das coisas passa a depender do olhar dos outros. Viagens tornam-se cenários, refeições viram conteúdo e experiências deixam de ser vividas para serem exibidas. A ansiedade não nasce apenas do desejo de possuir, mas do medo de desaparecer aos olhos alheios. Vive-se sob a pressão constante de performar uma existência interessante, ainda que interiormente vazia.

O paradoxo é evidente: nunca estivemos tão conectados e, ainda assim, tantas relações parecem leves, descartáveis e sem memória. Falta tempo compartilhado, falta silêncio, falta presença. Falta aquilo que Ulisses reconheceu intuitivamente ao olhar o mar todos os dias na ilha da ninfa: uma vida sem direção pode ser confortável, mas provoca uma saudade difícil de explicar, a saudade de si mesmo.

A boa vida talvez não esteja em eliminar o esforço, o emvelhecimento ou a frustração. Ela nasce quando nossas escolhas têm peso, quando nossas relações acumulam história e quando sabemos que o tempo é finito. É justamente o limite que dá valor ao encontro, à palavra dita, ao gesto que não pode ser repetido.

Viver bem, portanto, não significa poder comprar tudo o que se deseja nem viajar para todos os lugares sonhados. Também não se confunde com seguir expectativas alheias, acumulando experiências ou bens apenas porque se tem condições para isso. O conforto material é bem-vindo e pode tornar a vida mais leve, mas não é o centro da existência. Uma vida boa nasce quando estamos em paz com o lugar onde estamos, fazendo aquilo que realmente nos mobiliza, e não aquilo que os outros esperam ver. O valor não está no excesso, mas na coerência entre aquilo que escolhemos e aquilo que vivemos. É essa fidelidade silenciosa a si mesmo que transforma a rotina comum em algo que vale a pena ser vivido.

No fundo, a lição da Odisseia é simples e desconcertante: não precisamos de uma existência perfeita, mas de uma existência verdadeira. Em tempos de exposição permanente e consumo acelerado, talvez o maior gesto de liberdade seja parecido com o de Ulisses, afastar-se, ainda que por instantes, da ilha encantada onde tudo parece fácil e admirável, e retornar ao que é real. Voltar para as conversas sem plateia, para os afetos que não cabem em fotografias, para o trabalho que dá sentido aos dias. Porque, no fim, a vida boa não é aquela que mais impressiona os outros, mas aquela na qual conseguimos reconhecer a nós mesmos quando o silêncio finalmente chega.

Amílcar Fagundes Freitas Macedo – macedo304@gmail.com

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