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A banca sempre ganha

No jogo, tem uma coisa que todo mundo sabe: a banca sempre ganha. Outra regra que ninguém desconhece na jogatina, nos bingos, nas loterias é a que as chances de ganhar são mínimas. Não precisa de sabedoria, não depende do grau de instrução do jogador, não se aprende nos livros nem nos bancos escolares.

Sabem dessa verdade universal e conhecida, quem bota dinheiro nas apostas das bets – ali é prejuízo certo, se perde dinheiro, pode-se perder o controle e a estribeira – a legião dos viciados.

Estes, deixam de comprar o pão e o leite em casa, deixam de pagar o aluguel e os boletos nossos de cada dia, para “aplicar” o que ganham (muitas vezes o pouco que ganham), na esperança de ganhar uns trocados, de ganhar muito dinheiro, de dar uma tacada de sorte e ficar ricos. E de novo, como todos sabem, isto é perseguir uma miragem, é um engodo, uma desgraça.

É nisso que o jogo se transforma com alarmante frequência: numa desgraça. São incontáveis os lares, as famílias que desmoronam por causa da jogatina.

Em grande medida a jogatina está se tornando uma doença, tal como é a bebida, agravada agora agora pela Copa do Mundo. É no futebol que ela alcançou rapidamente um domínio avassalador – patrocínio de clubes, federações, transmissões esportivas. Jorram milhões da jogatina. Da mesma forma como nasce um otário por minuto, ditado atribuído ao americano P.T. Barnum, nasce uma bet por semana.

A doença que afeta todas as classes sociais, atinge de forma mais destruidora as famílias de baixa renda. O fenômeno ganhou tal dimensão que o governo bloqueou 2,8 milhões de beneficiários de BPC – Benefícios de Prestação Continuada e do Bolsa Família de apostarem nas bets.

E em breve as apostas, como nas carteiras de cigarro, serão apresentadas com recomendações do tipo “(com apostas) você perde dinheiro” ou “apostas podem causar dependência”, além de outras medidas restritivas. De fato, as coisas foram longe demais.

Para ver o tamanho do estrago, basta ver que existem no Brasil 187 plataformas de apostas legalizadas no Ministério da Fazenda. E milhares delas não foram autorizadas porque não cumpriam as exigências da lei. O Brasil é hoje o quinto mercado mundial de apostas esportivas.

O mercado de bets foi criado no governo de Michel Temer. Atravessou todo o governo de Bolsonaro, que deixou rolar a jogatina sem regulamentação. E foi regulamentado em 2023 no governo Lula. Temer criou. Já eram visíveis as consequências e Bolsonaro e Lula poderiam tê-la revogada, ou feito aprovar uma regulação mais restritiva. Mas ninguém quis fazer.

Como costuma acontecer neste país, agora que as bets estão estabelecidas, que fazem parte da paisagem, ninguém mais as deterá. O que se pode fazer agora o governo já começou a fazer – reduzir os danos.

Mas é certo que ninguém irá longe em opor limites ao mercado de apostas, como ele existe hoje. O setor é articulado, tem muito dinheiro e é muito forte – tem tentáculos espalhados em todos os poderes.

Mudanças substantivas, controles mais rigorosos, regras mais severas terão grandes dificuldades de transitar no Congresso, onde o jogo tem uma bancada influente e poderosa.

(titoguarniere@terra.com.br)

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