O avanço rápido da inteligência artificial generativa exige uma infraestrutura gigante. Esse sistema consome volumes alarmantes de eletricidade e água para resfriamento. Um levantamento técnico elaborado pela Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom) em parceria com a PricewaterhouseCoopers (PwC) trouxe dados críticos. A demanda projetada para novos centros de processamento equipara-se ao gasto de metrópoles inteiras.
Essa realidade física e concreta colide diretamente com a estabilidade do sistema interligado nacional. Provedores internacionais instalam suas bases operacionais no território brasileiro.
Eles são atraídos pela fartura de matrizes limpas. Tais empresas transferem o valor econômico bruto para os países ricos do Norte Global. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) enfrenta uma pressão inédita sobre as redes metropolitanas durante picos de lentidão crítica das transmissões.
O país funciona como mero exportador de processamento computacional bruto. Ao mesmo tempo, herda a escassez de água regional. O impasse legislativo na Câmara dos Deputados trava o progresso do Marco Legal da Inteligência Artificial.
A proposta está inserida no Projeto de Lei (PL) 2338/2023. As corporações estrangeiras pressionam por uma falta de regras agressiva e imediata. Elas se inspiram na postura norte-americana de domínio total de mercado.
Enquanto isso ocorre, o patrimônio de dados do país sofre grande perda e exploração. Uma proteção urgente precisa ser criada contra a ilusão de gestores públicos. A entrega da nossa energia limpa para alimentar modelos privados estrangeiros é extremamente perigosa hoje.
A ausência de contrapartida fiscal ou de repasse de tecnologia agrava o quadro atual de forma acelerada. Isso representa a rendição da soberania nacional na nova era dos algoritmos.
A aplicação de uma tarifa ambiental sobre infraestruturas que exportam dados protege as nossas fronteiras da informação. A arrecadação compensatória deve obrigatoriamente subsidiar a inovação local de código aberto. O montante também precisa financiar o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA).
O crescimento dos data centers também exige uma discussão transparente sobre planejamento energético. A expansão da demanda por eletricidade precisa ser acompanhada por investimentos em geração, transmissão e armazenamento capazes de preservar a confiabilidade do sistema.
Sem coordenação entre política digital e política energética, o país corre o risco de enfrentar gargalos que elevem custos, reduzam a competitividade e pressionem consumidores e setores produtivos.
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) necessita agir em conjunto com reguladores de cada setor. O objetivo principal é coibir o abuso de poder financeiro e estrutural.
A regulação dos algoritmos no país deve sujeitar os sistemas automáticos à eficiência do Estado e à dignidade humana. Sensores e infraestruturas vitais funcionam como os olhos do governo moderno e conectado. A custódia desses ativos essenciais deve ser mantida longe de grupos de fora.
Se o controle da informação permanecer sob o domínio estrangeiro, a nossa independência digital desaparece. O cidadão acaba transformado em mero laboratório de dados de consumo. O reequilíbrio dessa diferença de mercado exige notável coragem política dos governantes.
Demanda também desenhos de incentivos burocráticos rígidos das instâncias de decisão em Brasília. O encerramento desse ciclo pernicioso de submissão tem o poder de reconectar a riqueza de nossas águas e energia.
Esse movimento atrela nossos recursos ao progresso socioeconômico interno da nação. A proteção das fronteiras elétricas brasileiras garante que a tecnologia atue na verdadeira libertação das pessoas.
Essa defesa também assegura que o progresso técnico financie a melhoria efetiva da qualidade de vida de nosso povo. Naturalmente, a dinâmica tecnológica admite outras perspectivas de análise que enriquecem este debate público essencial.
A discussão não deve ser sobre impedir a chegada de data centers ao Brasil, mas sobre estabelecer condições que alinhem desenvolvimento tecnológico e interesse nacional. Países que lideram a economia digital combinam infraestrutura robusta, segurança regulatória e mecanismos de retorno econômico para a sociedade.
O desafio brasileiro consiste em transformar sua vantagem energética em uma vantagem tecnológica capaz de gerar inovação, empregos qualificados e maior competitividade para a economia.
* Régis de Oliveira Júnior, jornalista e especialista em Inteligência Artificial
