O próximo presidente do Brasil enfrentará um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas, disputas comerciais e mudanças políticas em países estratégicos. Independentemente de quem vencer o segundo turno, os principais desafios serão reconstruir a relação com os Estados Unidos, equilibrar os interesses de Washington e Pequim e recuperar a coordenação política e econômica na América do Sul.
Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, as eleições legislativas americanas, em novembro, e os pleitos presidenciais na França e na Argentina, em 2027, poderão alterar o equilíbrio internacional. O cenário é descrito como uma espécie de “surrealpolitik”, marcada pela imprevisibilidade das alianças e pela falta de regras claras nas relações entre países.
Estados Unidos
A relação com o governo de Donald Trump será um dos principais desafios. Desde que voltou à Casa Branca, o presidente americano elevou tarifas sobre produtos brasileiros, classificou facções criminosas do Brasil como terroristas e fez declarações contraditórias sobre Lula. Ao mesmo tempo, recebeu Flávio Bolsonaro em Washington e manteve proximidade com integrantes da família Bolsonaro.
Caso Lula seja reeleito, poderá enfrentar uma relação mais conflituosa com Washington, especialmente diante da postura do secretário de Estado americano, Marco Rubio. Analistas avaliam que Trump poderá usar tarifas e outras medidas de pressão para tentar limitar os investimentos chineses no Brasil e ampliar o acesso americano a minerais estratégicos.
Se Flávio Bolsonaro vencer, a tendência inicial seria de maior alinhamento ideológico com os Estados Unidos. Entretanto, essa proximidade não eliminaria os conflitos de interesses. A pressão americana para que o Brasil se afaste da China poderia gerar custos econômicos e políticos elevados.
Para especialistas, o próximo governo precisará convencer Washington de que o Brasil não representa uma ameaça aos interesses americanos, sem comprometer sua autonomia diplomática.
Rivalidade
A rivalidade entre Washington e Pequim será outro desafio central. A China é o principal parceiro comercial brasileiro e respondeu por 28,7% das exportações nacionais em 2025, com cerca de US$ 100 bilhões em receitas. Os Estados Unidos ficaram em segundo lugar, com 10,8%.
A China também investiu US$ 6,1 bilhões no Brasil em 2025, alta de 45% em relação ao ano anterior. Os investimentos americanos somaram US$ 8,5 bilhões, abaixo dos US$ 12 bilhões registrados em 2024.
Especialistas consideram improvável que qualquer governo consiga reduzir significativamente a importância chinesa para a economia brasileira. A participação do país nos Brics também torna difícil uma mudança radical de orientação diplomática.
O desafio será negociar com as duas potências sem ficar subordinado a nenhuma delas. Entre os temas em disputa estão minerais críticos, terras raras, inteligência artificial, infraestrutura, soberania digital e fontes de energia.
América do Sul
O próximo presidente também precisará reconstruir a coordenação regional. A divisão ideológica entre governos sul-americanos tem dificultado iniciativas de integração, incluindo o Mercosul.
A criação do Escudo das Américas, coalizão militar liderada pelos Estados Unidos e integrada por países latino-americanos, também é vista por analistas como um fator de isolamento do Brasil.
Para recuperar influência, o país poderá precisar negociar acordos bilaterais com os vizinhos, oferecendo benefícios econômicos e políticos sem exigir que eles rompam relações com Washington.
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia facilitar o diálogo inicial com governos de direita da região. Ainda assim, as diferenças de interesses econômicos, especialmente em relação à China, permaneceriam.
Argentina
A disputa presidencial argentina de 2027 será decisiva para o futuro do Mercosul e das relações com Brasília. O presidente Javier Milei, alinhado a Trump, deverá buscar a reeleição, enquanto a oposição peronista tenta recuperar espaço.
Caso Milei permaneça no poder, o Mercosul poderá perder força como instrumento de negociação coletiva. Uma vitória da oposição, por outro lado, poderia favorecer a aproximação com o Brasil, independentemente de quem ocupar a Presidência brasileira.
Analistas também apontam que Milei poderia perder parte de sua influência junto a Trump caso Flávio Bolsonaro seja eleito, já que o Brasil tem maior peso econômico e estratégico para os Estados Unidos do que a Argentina.
Incertezas
A Europa também passará por mudanças políticas em 2027. A eleição presidencial francesa definirá o sucessor de Emmanuel Macron, considerado um importante aliado do Brasil no continente. As pesquisas indicam vantagem da candidata da direita radical Marine Le Pen.
Espanha e Itália também terão eleições capazes de alterar o equilíbrio político europeu. Uma guinada à direita em países importantes poderia ampliar a fragmentação da União Europeia e reduzir sua capacidade de atuar como polo independente entre Estados Unidos e China.
Para o Brasil, a mudança dificultaria a identificação de parceiros confiáveis e a negociação de acordos comerciais e diplomáticos.
Em meio a esse cenário, especialistas avaliam que o próximo presidente precisará adotar uma política externa pragmática, preservar a soberania nacional e evitar que a rivalidade entre grandes potências limite as opções econômicas e diplomáticas do país. (Com informações do BBC News Brasil)
