Barack Obama deixou a Presidência dos EUA em janeiro de 2017 e mergulhou num longo período de reflexão sobre seus oito anos na Casa Branca. Do exercício brotaram as 751 páginas, escritas à mão em blocos amarelos, do primeiro volume de suas memórias, “Uma terra prometida”. P
ara ele, a polarização desmedida, as teorias da conspiração, as mentiras propagadas pela direita americana e o desdém de Donald Trump por valores e normas corroeram o processo democrático e vão demorar para serem superados pela sociedade americana.
“A nossa democracia está desgastada. Não é apenas um resultado relacionado a Donald Trump. As histórias que conto sobre a minha Presidência indicam como algumas dessas tendências já existiam”, afirmou Obama ao jornal O Globo e à TV Globo.
Obama afirma que, tal qual Trump, o presidente Jair Bolsonaro despreza a ciência, mas terá no governo de Joe Biden “uma oportunidade de redefinir a relação” com os EUA e manter a liderança brasileira no combate às mudanças climáticas. No livro, ele descreve o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um líder cativante que tirou pessoas da pobreza, mas que teria “os escrúpulos de um chefão mafioso”.
1) O presidente Trump insiste em que a eleição tenha sido fraudada, mantendo a polarização em níveis altíssimos e dificultando as coisas para Joe Biden curar o país, como ele havia prometido. Qual é o dano para a democracia americana e como o presidente eleito Biden deve abordar os 70 milhões de americanos que votaram no presidente Trump?
Não existe dúvida de que os EUA estão profundamente divididos neste momento. O resultado dessa eleição foi claro. A maioria das pessoas abraçou Joe Biden. Não existe nenhuma prova de que não tenha sido uma eleição justa e segura, na qual os votos foram contados e Joe Biden recebeu quase 5 milhões de votos populares a mais e muito mais votos eleitorais do que Donald Trump. Mas também é verdade que os partidos, os democratas e os republicanos, têm diferenças profundas agora. Vai ser um desafio tentar criar a união da qual precisamos para que o governo enfrente grandes desafios como a Covid-19, a mudança climática e a crise econômica. Acho que Joe vai ajudar a diminuir a temperatura e restaurar algumas das normas, tradições e valores institucionais básicos que republicanos e democratas antes de Donald Trump cumpriam. Não estou surpreso com o fato de Donald Trump estar violando o costume da transição de poder pacífica, porque ele violou vários tipos de normas antes. A boa notícia é que, no fim das contas, não vai fazer diferença. No dia 20 de janeiro, teremos um novo presidente. Conto no livro que, apesar das diferenças, George W. Bush não poderia ter sido mais cortês na instrução de suas equipes e agências para que trabalhassem conosco para garantir uma transição tranquila. Como estávamos no meio de uma crise na época, isso permitiu que conseguíssemos agir rápido em relação às questões ligadas à crise financeira. Se Donald Trump estivesse fazendo a mesma coisa, acho que seria mais fácil para o presidente eleito Biden e sua equipe abordar o vírus. Isso pode salvar vidas.
2) Então acredita na democracia americana?
Acredito. Mas, como digo no livro, a nossa democracia está desgastada. Não é apenas um resultado relacionado a Donald Trump. As histórias que conto sobre a minha Presidência indicam como algumas dessas tendências já existiam. A tendência do Partido Republicano de contestar e obstruir até mesmo as políticas que eles haviam proposto antes se a proposta viesse de mim. Os tipos de teorias da conspiração e associações muito vagas com a verdade que vimos em algumas das mídias de direita e agora nas redes sociais que primeiro permitiram o movimento birther [que afirmava falsamente que Obama não nasceu nos EUA] dentro do Partido Republicano e agora as afirmações do presidente de que houve fraude numa eleição que até os funcionários locais republicanos garantiram que não teve nenhum problema significativo. Algumas dessas tendências têm raízes profundas e vai demorar um tempo para desmembrá-las, mas, no fim das contas, acredito na democracia americana. Em parte porque acredito nos jovens que vi, não só nos EUA, mas no mundo todo. Eles são instintivamente inclusivos, eles acreditam instintivamente em igualdade e justiça para as pessoas, mesmo que não sejam iguais a eles, eles reconhecem que o mercado livre precisa ter algumas regulamentações que permitam que os pobres também avancem e que garantam a sustentabilidade ambiental. Acho que as linhas de tendência são boas, mas o trajeto pode ser turbulento.
