A eleição para o Congresso aponta para um índice de baixa renovação na Câmara dos Deputados, com um número elevado de nomes concorrendo à reeleição turbinados pelas emendas parlamentares, e uma mudança no perfil do Senado, impulsionada pela bandeira de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que foi abraçada por candidatos de direita. A disputa tem um alto grau de imprevisibilidade, segundo especialistas, por causa da duração curta da campanha e das decisões de voto de última hora.
Dos 513 deputados, 438 disputam a reeleição, o equivalente a 85,38% da atual composição, de acordo com o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). A projeção da entidade é que cerca de 70% deles devem obter um novo mandato. A renovação deve ficar entre 39% e 43%, abaixo da média de 46%, registrada entre 1990 e 2022.
Na análise do Diap, os candidatos à reeleição podem ser beneficiados por vantagens como a capacidade de direcionar emendas Orçamento de 2026 prevê R$ 61 bilhões para essa finalidade estrutura do mandato, com gabinete parlamentar e maior exposição pública. Partidos grandes, incluindo PL, PT e legendas do Centrão, tendem a sair ainda mais fortalecidos.
No Senado, onde 54 das 81 vagas estão em disputa neste ano, com cada Estado elegendo dois representantes, 32 senadores em fim de mandato tentam a reeleição, segundo o Diap. A projeção é de uma renovação entre 22 e 44 cadeiras, o que representaria de 27% a 54% da composição, num resultado capaz de modificar a correlação de forças na Casa.
A cientista política e CEO do grupo Ideia, Cila Schulman, prevê “alta reeleição” na Câmara, graças a incentivos como o apoio construído com emendas, o que cria “uma assimetria grande em relação aos novatos”, e o fundo eleitoral robusto, com uma distribuição pelos partidos que fica concentrada nos atuais parlamentares. Para ela, a conjuntura deve favorecer mais espaço para o Centrão na próxima legislatura.
“É uma campanha muito curta, que teve pouco engajamento do eleitor. Existe uma desconfiança da política neste momento e um desalento, o que torna difícil o conhecimento dos candidatos e a renovação”, afirma ela, que é colunista do Valor.
No caso do Senado, a especialista em pesquisas projeta 60% de nomes novos, com possibilidade de mais mulheres eleitas e uma guinada à direita, atrelada às críticas ao STF. Schulman pondera que as pesquisas para senador têm mostrado alto percentual de indecisão e o risco de eleitores se confundirem com o voto duplo, causando um patamar alto de nulos. Ela diz ainda que a correlação entre o voto para governador e senador tende a se manter.
Para Murilo Medeiros, cientista político pela Universidade de Brasília (UnB), a provável continuidade de parte significativa dos deputados federais reflete um quadro em que “o mandato parlamentar ficou eleitoralmente mais poderoso”.
“Na última eleição, cada deputado tinha direito a R$ 16 milhões em emendas individuais, e agora são mais de R$ 40 milhões. São recursos que irrigam as bases eleitorais, facilitam a construção de apoios municipais e o estabelecimento de pontes com prefeitos e vereadores. Além desses instrumentos à disposição, o volume de verbas eleitorais para os atuais parlamentares fecha as portas para a renovação”, diz ele.
Na leitura de Medeiros, o contexto deve resultar na permanência de partidos de centro-direita no controle da Casa, mas o PT poderá conquistar número relevante de cadeiras, impulsionado pela presença na Presidência da República nos últimos quatro anos e por um afunilamento partidário do campo da centro-esquerda, desidratando siglas como PSB e PDT.
No Senado, a disputa ficou “mais concorrida” porque a Casa se tornou mais visada pelos partidos, “escalando suas vitrines eleitorais para concorrer e investindo muitos recursos”, avalia.
“Há uma prioridade maior das legendas em conquistar vagas no Senado. É uma eleição que deixou de ser secundária”, diz Medeiros, que demonstra ceticismo sobre o avanço dos pedidos de impeachment, em virtude do alto quórum exigido, mas vê espaço, ao menos, para propostas sobre reformas do Judiciário. “O próximo Senado terá mais influência sobre a governabilidade do presidente, seja ele quem for”, acrescenta o cientista político. (Com informações do Valor Econômico)
