Ícone do site Jornal O Sul

A eleição também se lê

(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Em meio à avalanche de vídeos, opiniões, pesquisas, memes, críticas e discussões que acompanham uma eleição, existe uma ferramenta simples, oficial e talvez pouco conhecida que merece mais atenção: os próprios programas de governo dos candidatos.

Confesso que fui procurar. Como alguém que acompanha há anos a agenda da sustentabilidade e da transição energética, quis saber como o meio ambiente aparece nas propostas daqueles que pretendem governar o país. E foi nessa busca que encontrei uma iniciativa do Tribunal Superior Eleitoral que considero especialmente útil: uma página que reúne os planos de governo das candidaturas à Presidência e permite consultar as propostas por assunto.

Não é preciso ser especialista em política, economia ou meio ambiente para utilizar a ferramenta. Os documentos oficiais estão ali, disponíveis para qualquer cidadão, e podem ser consultados por temas. É possível baixar os programas completos ou visualizar as propostas organizadas por assuntos. Segundo o próprio TSE, as informações foram extraídas dos documentos apresentados formalmente pelas chapas e disponibilizadas originalmente no sistema DivulgaCandContas.

Isso parece uma coisa pequena, mas não é.

Estamos entrando na reta final de uma eleição em que a informação chega até nós em uma velocidade impressionante. Um vídeo de poucos segundos pode provocar indignação ou entusiasmo. Uma frase recortada pode circular milhares de vezes. Uma opinião publicada por alguém que admiramos pode acabar substituindo a nossa própria investigação.

E talvez esteja justamente aí um dos grandes desafios deste processo eleitoral: não apenas receber informação, mas desenvolver o hábito de procurá-la na fonte.

No meu caso, comecei pelo meio ambiente. Mas rapidamente percebi que não existe mais uma fronteira tão clara entre aquilo que chamamos de agenda ambiental e as demais questões de um país. Quando falamos de clima, estamos falando também de agricultura, água, cidades, infraestrutura, energia, indústria, mineração, transportes, saúde e segurança alimentar. Quando discutimos a transição energética, estamos falando de desenvolvimento econômico, competitividade, empregos, tecnologia e até soberania nacional.

Por isso, talvez seja insuficiente perguntar se determinado candidato é “a favor” ou “contra” o meio ambiente. A pergunta mais interessante é outra: o que exatamente ele propõe?

Que matriz energética pretende estimular? Como pretende enfrentar os eventos climáticos extremos? O que propõe para a Amazônia e os demais biomas? Como pretende conciliar produção agrícola e conservação? Que papel atribui às energias renováveis? Como enxerga a indústria brasileira diante da transformação tecnológica e climática que está acontecendo no mundo?

As respostas estão, pelo menos em parte, nos programas de governo.

E não precisamos concordar com aquilo que está escrito. Aliás, é justamente essa a questão. Conhecer uma proposta não significa apoiá-la. Significa ter condições de avaliá-la a partir do que efetivamente foi apresentado, e não apenas daquilo que alguém disse sobre ela.

O TSE informa que a nova plataforma organiza as propostas em oito macrotemas e permite a busca direta por assuntos de interesse do eleitor. É uma oportunidade para fazer algo que parece cada vez mais raro em tempos de excesso de informação: parar, ler e comparar ideias.

Talvez essa seja uma das atitudes mais importantes que podemos ter diante de uma eleição. Não transformar o voto em torcida. Não entregar nossa capacidade de reflexão inteiramente às redes sociais. Não considerar que conhecer um candidato significa apenas acompanhar suas declarações ou os comentários de seus apoiadores e adversários.

Há uma diferença enorme entre saber o que estão dizendo sobre alguém e saber o que essa pessoa está propondo.

Tenho acompanhado a questão ambiental há muitos anos e, ainda assim, ao consultar os programas de governo, encontrei informações que merecem ser conhecidas com mais atenção. Isso me fez pensar que talvez muitas pessoas simplesmente não saibam que essa possibilidade existe.

Por isso, resolvi compartilhar.

O Tribunal Superior Eleitoral disponibilizou uma ferramenta que qualquer eleitor pode consultar. Não é necessário concordar com o TSE, com os candidatos ou com as propostas apresentadas. Basta acessar, escolher um tema de interesse e ler.

Em uma eleição tão carregada de opiniões, talvez valha experimentar algo diferente: buscar primeiro a informação e formar depois a opinião.

Afinal, antes de escolher, é preciso conhecer.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)

Sair da versão mobile