Eles são, principalmente, de partidos de centro, com experiência e mandatos anteriores e representam, em sua maioria, eleitores do Sudeste. Votaram neste ano quase que sempre de acordo com a agenda econômica do presidente Jair Bolsonaro e muitos desempenham papeis de destaque em suas bancadas.
Esses são alguns dos traços que unem os deputados federais eleitos com recursos dos maiores doadores da campanha de 2018. Um levantamento feito pelo Jornal Valor e pelo Parlametria, um projeto ligado à Universidade Federal da Paraíba e às ONGS Dado Capital e Open Knowledge, mostra quem são e como atuaram em 2019 esses parlamentares.
Ao todo, 36 deputados, de 14 partidos e de 10 Estados foram eleitos com as bençãos de algum ou alguns integrantes desse seleto grupo de financiadores. Entre os financiadores, vários figuram na lista de bilionários da revista americana “Forbes”. São eles: Rubens Ometto, do grupo Cosan; Abilio Diniz, empresário e acionista do Carrefour; Jayme Garfinkel, da seguradora Porto Seguro; Rubens Menin, da construtora MRV; Carlos Jereissati, do shopping Iguatemi; Pedro Grendene Bertelle, da Grendene; e Elie Horn, da construtora Cyrella.
Além deles – embora não no time de bilionários –, Salim Mattar, da Localiza Hertz, João Carlos Di Genio, da Universidade Paulista (unip) e da rede de ensino Objetivo; Flávio Gurgel, da Riachuelo; e José Carlos Reis de Magalhães Neto, da gestora de investimentos Tarpon. Juntos esses times de 11 doadores gastou na campanha R$24,5 milhões 240 e doações a partidos e a candidatos a diversos cargos.
O levantamento mostra que os deputados federais eleitos com ajuda desses empresários são, em sua maioria, parlamentares experientes e influentes. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), por exemplo, recebeu R$ 500 mil de Carlos Jereissati e R$ 200 mil de Salim Mattar.
O líder da Maioria, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) recebeu R$ 250 mil de Rubens Ometto. O relator da reforma de Previdência, Samuel Moreira (PSDB-SP), R$ 100 mil de João Carlos Di Genio e o relator da medida provisória da Liberdade Econômica, Jerônimo Goergen (PP-RS), R$ 150 mil de Ometto. Novatos como Marcel van Hatten (Novo – RS) e Geninho Zuliani (DEM-SP) também tiveram, entretanto, um lugar. Dos 36 deputados do grupo, 13 foram eleitos pela primeira vez. Hatten teve Salim Mattar como um de seus financiadores de campanha, com um aporte de R$ 100 mil. Zuliani ganhou R$ 100 mil de Rubens Ometto.
Apesar de novatos, seis desses deputados ocuparam este ano posições de líder ou vice-líder de seus partidos. Um sétimo estreante, Zuliani, é relator do marco legal do saneamento – um projeto acompanhado de perto por investidores privados. “Os grandes doadores não dão dinheiro a esmo. Conseguem ler quais candidatos são viáveis que vão ter um papel importante no Congresso”, diz Bruno Carazza, professor do Ibmec em Belo Horizonte.
Há outro aspecto. “No caso de parlamentares novatos, a chancela de um empresário proeminente como doador dá a eles cacife para ocupar postos de destaque”, afirma Caraza. Ele prossegue: “Doação para campanha por parte de empresário é, em geral, uma tentativa de aproximação do poder político, uma tentativa de ‘compra’ de acesso facilitado àquele parlamentar, a quem o doador pode levar suas visões e seus pleitos e tentar influenciar projetos em tramitação no Congresso são – além dos líderes – os relatores.
Os deputados eleitos pelos grandes doadores são relatores de ao menos 50 projetos que envolvem diretamente interesses econômicos ou que fazem parte da agenda do governo. A campanha do ano passado foi a primeira sob as novas regras eleitorais que proibiram doações de empresas aos candidatos. Apenas recursos de pessoas físicas e públicos passaram a valer.
