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A emergência climática invadiu as nossas casas: o Brasil é um país muito vulnerável à mudança do clima

Os municípios não estão preparados para adaptação à mudança do clima. (Foto: Mauricio Tonetto/Secom)

A emergência climática invadiu as nossas casas. O Brasil tem muitos dados, mas apesar disso ainda não abraçou o tema da adaptação. Tudo tem que se adaptar a um aumento de temperatura de 1,5°C ou mais. As três frases acima são da economista e doutora em ciência política Ana Toni, secretária nacional de Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente. “O Brasil é um país muito vulnerável à mudança do clima – essa ficha tem que cair.”

Ana Toni conduz um processo no Ministério do Meio Ambiente, com 20 outras pastas do governo federal, de atualização do Plano Clima e da Estratégia Nacional de Adaptação. Estão sendo construídos 15 planos setoriais – de agricultura e energia, biodiversidade, povos indígenas, cidades – para preparar o país ao que é inevitável e, em alguns casos, iminente.

Também a comunidade internacional “ainda coloca menos ênfase na adaptação. Cerca de 90% do financiamento climático global ainda é para mitigação. Essa é a realidade”, diz ela. Se investimentos em mitigação de gases-estufa têm resultados globais, a adaptação é local e de menos impactos transfronteiriços. Essa é a primeira dificuldade.

Outra são os custos gigantescos. “As Nações Unidas têm uma estimativa de custo de adaptação para países em desenvolvimento de algo entre U$ 215 bilhões e U$ 387 bilhões por ano, mas não temos custos estimados para o Brasil. Com os 15 planos específicos teremos condições de ter estimativas de custos mais seguras.”

Ana Toni tem claro o que deve acontecer para que se salvem mais vidas e as perdas sejam as menores possíveis, em desastres futuros. “O importante é que se inicie um processo de olhar adaptação nos planos dos governos que seja ‘mainstreaming’. Ou seja, que se pense em adaptação em todas as áreas.”

Leia a seguir os principais pontos da entrevista que ela concedeu ao jornal Valor Econômico nos dias em que o Rio Grande do Sul vive uma tragédia.

O desastre na sala

A emergência climática invadiu as nossas casas. Falar de mitigação é prioritário porque diminui o impacto futuro das emissões de gases-estufa, mas temos que falar também, e com igual ênfase, de adaptação e dos desastres que já estão acontecendo.

Só que essa é uma agenda mais crua na negociação internacional. Porque enquanto mitigação, se faço no Brasil, pode ter efeitos positivos na China ou no Reino Unido, e vice-versa -pode ser um efeito negativo, se estiver emitindo – a adaptação é de responsabilidade local e tem efeitos transfronteiriços muito menores. Então, a comunidade internacional ainda coloca menos ênfase na adaptação. Cerca de 90% do financiamento climático global ainda é para mitigação. Essa é a realidade. Por isso o Brasil colocou como uma das prioridades do G20, no grupo de trabalho de meio ambiente e clima, falar de financiamento para adaptação.

A ficha tem que cair

Adaptação já é uma realidade. O Brasil é um país muito vulnerável à mudança do clima – essa ficha tem que cair. Sempre se pensa nas oportunidades econômicas do país, que são verdadeiras, mas temos que falar das vulnerabilidades do Brasil para enchentes e secas. No semiárido há previsão de termos uma área desértica.

O segundo ponto é que os municípios não estão preparados para adaptação à mudança do clima. Não têm planos ou são poucos, pouca Defesa Civil, pouca comunicação com a sociedade. A capacidade adaptativa ainda é pouca, continuamos falhando. Em Bangladesh, por exemplo, como convivem muito com eventos extremos, já existem lugares para estocar sementes, onde pessoas podem se abrigar.

No Brasil temos muitos dados. O site AdaptaBrasil, do MCTI, é maravilhoso – tem dados município por município. Mas, apesar de ter tantos dados, o Brasil não abraçou o tema de adaptação. O país tem que se preparar melhor.

Estratégia

Estamos trabalhando na atualização do Plano Nacional sobre Mudança do Clima, o Plano Clima. Está ocorrendo no Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima, o CIM, e há 20 órgãos participando. Há uma estratégia geral que se divide em mitigação e adaptação. Estamos trabalhando agora em 15 planos setoriais de adaptação.

Já tivemos reuniões com Estados e municípios. Temos um programa para ajudar 260 cidades a fazerem seus planos de adaptação. Conseguimos recursos do Green Climate Fund e agora cada um dos 26 Estados vai sugerir os dez municípios mais vulneráveis para que façam seus planos de adaptação.

Financiamento

Os instrumentos de financiamento climático para mitigação são muito diferentes dos da adaptação. Não só vamos precisar muito de recurso público, mas vai ter que mobilizar recursos privados para adaptação. Quem já percebeu isso são as seguradoras, que são as primeiras a querer que nos adaptemos melhor porque os custos acabam sendo pagos por elas. As informações são do jornal Valor Econômico.

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