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A era da certeza instantânea: entre o saber e o achismo

(Foto: Reprodução)

Em 1999, os psicólogos David Dunning e Justin Kruger apresentaram um estudo que se tornaria referência para compreender a fragilidade da mente humana diante da própria ignorância. O chamado Efeito Dunning-Kruger revelou que pessoas despreparadas tendem a falar com segurança desmedida, enquanto indivíduos mais inteligentes e estudiosos são cautelosos em suas afirmações. A incompetência, paradoxalmente, gera confiança: quem não sabe, não sabe que não sabe. E assim surgem os “achistas profissionais”, convictos em suas certezas frágeis.

Esse fenômeno é um espelho da sociedade atual. Vivemos na era da certeza instantânea, em que todos parecem saber de tudo. Basta um vídeo curto, uma mensagem em grupo ou um post nas redes sociais para que opiniões absolutas se multipliquem. Questões complexas, que exigiriam estudo e reflexão, são reduzidas a slogans e frases de efeito. A ciência, por sua natureza vacilante e baseada em evidências, experimentos e revisões constantes, é vista como frágil diante da arrogância dos ignorantes.

A certeza absoluta alimenta a polarização e a intolerância. Não temos mais sabedoria, apenas informação fragmentada. O filtro mental que separava conhecimento de opinião está em crise. As redes sociais, repletas de tolices, transformaram-se em palcos onde a ciência é debochada e menosprezada. O retrato é de uma sociedade que não abraça o conhecimento, mas sim a aparência de saber. Hoje, parecer inteligente parece mais importante do que ser de fato inteligente.

O aprendizado está em crise. Especialistas improvisados infestam as redes, espalhando desinformação. A opinião passou a valer mais do que a informação estruturada pela ciência. Eu, que trabalho e viajo discutindo sustentabilidade, proteção ao meio ambiente e combate ao aquecimento global, me deparo constantemente com desinformações que minam esforços sérios. É como se estivéssemos todos presos em um teatro, desempenhando papéis em que a convicção importa mais do que a verdade.

Precisamos aprender com os erros. Um dia, talvez, tenhamos humildade para reconhecer que ignorar as dúvidas da ciência em favor das certezas dos ignorantes é um caminho perigoso. Só assim poderemos reverter o quadro atual das mudanças climáticas. A questão ambiental, afinal, é também um reflexo da natureza humana: revela nosso comportamento, nossa racionalidade e nossas limitações.

A ciência pode mudar de orientação, porque cientistas são sábios o bastante para reconhecer erros. Já os ignorantes, presos em suas certezas, seguem até o fim, guiados por um ego fragilizado. Pensar é um ato humano, e não saber tudo não é fraqueza. Ter mais perguntas do que respostas é um desafio que nos impulsiona a crescer. A sabedoria deve ser prática, mas também aprofundada em estudos.

Estamos nos distanciando da inteligência real, aquela que é aberta, curiosa e flexível. O pesquisador Igor Grossmann, por exemplo, estudou esse tipo de inteligência, mostrando que ela se relaciona com a capacidade de reconhecer incertezas, considerar diferentes perspectivas e agir com humildade intelectual. Pensar para compreender, e não para vencer debates, é o que nos aproxima da verdadeira sabedoria.

Quando um cientista responde “eu não sei”, isso não é sinal de fraqueza, mas prova de inteligência e maturidade. É a serenidade de quem entende que o conhecimento é um processo em constante construção. O desafio que enfrentamos hoje é resgatar essa humildade intelectual e aplicá-la às grandes questões da humanidade, especialmente às ambientais.

Se quisermos discutir mudanças climáticas sem polarizações e interesses escusos, precisamos abandonar a ilusão do saber absoluto e abraçar a dúvida como motor da reflexão. Só assim poderemos construir consensos reais e avançar em direção a soluções que não sejam apenas palcos de vaidade, mas respostas concretas para salvar o planeta.

Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética

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