Segunda-feira, 25 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 8 de abril de 2018
Reportagens na imprensa alemã mostram visões opostas sobre a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que negou habeas corpus e abriu caminho para prisão de ex-presidente Lula.
Artigo de opinião publicado do jornal de economia de Düsseldorf, Handelsblatt, sob o título “Prisão do ex-presidente Lula é um vislumbre de esperança para o Brasil”, assinado por Alexander Busch, aponta que a derrota de Lula no STF é um sinal positivo e que o caso demonstra que o Brasil está na frente de outros países, como China e Rússia, quando se trata da separação de poderes.
“O ex-presidente Lula vai para a cadeia. Isso é bom para o país – a campanha anticorrupção pode finalmente ser bem-sucedida”, escreveu Busch.
“Se Lula tivesse sido bem-sucedido em seu pedido de habeas corpus, então essa última investigação hesitante de corrupção da Lava-Jato teria fracassado. Importante agora é que o Supremo, mesmo com a enorme pressão de apoiadores e adversários de Lula, rejeitou o pedido. Isso mostra que, em uma grande economia, como o Brasil – ao contrário da Rússia, da Turquia e da China, por exemplo – há uma separação entre os poderes do Executivo, do Congresso, do Judiciário e da mídia – ainda que isso possa ser aperfeiçoado.”
“Na verdade, Lula queria usar a sentença para continuar a atuar como candidato. Mesmo que a Justiça Eleitoral venha a rejeitar a candidatura, o que é provável, ele ainda pode recorrer. Lula, então continuaria a postergar a decisão do Judiciário além de outubro, quando a campanha eleitoral já vai estar a toda velocidade. O cálculo do PT é que, se Lula continuar a aumentar sua popularidade até lá, nenhum juiz ousaria barrar sua candidatura.”
“Mas, com a prisão, o cacife político de Lula diminuiu. Outros candidatos de esquerda estão agora pensando em seguir por contra própria novamente. No entanto, Lula não quer se afastar voluntariamente de sua candidatura. Para o político, que rejeita qualquer envolvimento e responsabilidade em acusações de corrupção, muito está em jogo”, apontou Busch.
O artigo de opinião no jornal de Munique, Süddeutsche Zeitung, intitulado “Uma fenda profunda atinge o Brasil” e assinado por Boris Herrmann, abordou a polarização no país. Segundo o autor, mesmo com as controvérsias envolvendo o processo contra o ex-presidente, a decisão do STF de negar o habeas corpus preventivo de Lula foi um sinal positivo de que ricos e poderosos não estão mais a salvo da lei.
“A prisão de Lula marca um ponto de virada na maior democracia da América do Sul, todos no Brasil concordam. Se essa mudança dramática é positiva ou negativa vai depender do ponto do vista ideológico.”
“Para a esquerda, Lula é uma estrela fixa, claramente inocente e claramente vítima de uma caça às bruxas do Judiciário. Já nos círculos conservadores, Lula é considerado o arquiteto da corrupção, a causa de todo mal no Brasil. Ambas as visões são exageradas, para não dizer mentirosas. Mas essa sociedade está dividida na questão: como lidar com Lula? A verdade é complexa. Mesmo que se suspeite de uma conspiração de direita contra a esperança esquerdista de Lula, esse julgamento, se considerado friamente, é ainda assim um serviço à democracia.”
“O veredito é principalmente uma derrota para Lula, e claro, para 30% dos eleitores brasileiros que o reelegeriam como chefe de Estado. A frustração dessa base de apoiadores possui um enorme potencial para tensões sociais e violência. Mas não era tarefa do tribunal pacificar esse país irremediavelmente dividido. Desta vez não foi sobre a culpa ou inocência de Lula, mas apenas um julgamento básico sobre a questão: quão operacional é a aplicação das leis brasileiras? Nesse sentido, a democracia brasileira provavelmente venceu.”
“Independentemente de qualquer pressão que esse julgamento do Supremo tenha sofrido, o resultado é justificável. Um velho provérbio brasileiro diz: quem tem dinheiro nunca é preso. O STF decidiu há dois anos que, após a segunda instância, uma sentença pode ser executada. Para protelar sem fim os casos, você precisa de um bom advogado, ou seja, um advogado caro. Portanto, uma moratória sobre Lula teria sido entendida como um sinal a favor dos ricos e poderosos do país.”
“Essa moral da história vai ser aplicada sobre um homem que lutou por justiça social como nenhum outro: sua derrota no STF protege seu país de mais injustiça”, concluiu Herrmann.
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