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A intenção era outra, mas “deu zebra”

Entre os apostadores, dizer que “deu zebra” era uma linguagem que se referia a algo impossível de acontecer. (Foto: Reprodução)

A jogatina no Brasil começou a ficar popular em 1893, com o Barão de Drummond, dono de zoológico do RJ.

Com o fim dos subsídios que eram dados pelo Império, sem dinheiro para manter o Zoo, Drummond lançou uma loteria para arrecadar recursos.

O jogo original consistia em 25 animais do Zoológico, sendo que cada animal correspondia a quatro dezenas, de 00 até 99, por ordem alfabética, do Avestruz à Vaca. Assim nasceu o jogo do bicho.

Curiosidade:

Entre os apostadores, dizer que “deu zebra” era uma linguagem que se referia a algo impossível de acontecer, pois no zoo e no jogo do Barão não havia a zebra.

Em 1964, a expressão “deu zebra” se popularizou no futebol com o treinador Gentil Cardoso, da Portuguesa.

Repórteres perguntaram sobre o jogo contra o poderoso Vasco da Gama. Gentil respondeu aos repórteres:

“Ganhar do Vasco é impossível.

É mais fácil ‘dar a zebra’ no jogo do bicho.”

A Portuguesa venceu a partida por 2×1 e consagrou o bordão.

Voltando.

Em 1920, o então Presidente da República, Epitácio Pessoa, deu uma “canetada” autorizando os cassinos no Brasil.

O decreto original tinha como objetivo (ou desculpa) melhorar receitas para os serviços de saúde pública.

No decreto, o governo abriu a exceção para funcionamento de cassinos em estâncias hidrominerais, com a cobrança de 15% de impostos para melhorar as receitas da saúde pública.

Em 26 anos, o Brasil já tinha cerca de 71 cassinos em pleno funcionamento; só no Estado do Rio de Janeiro eram no mínimo seis.

Em 1946, foi a vez do Presidente Gen. Eurico Gaspar Dutra dar a sua “canetada” e proibir os jogos.

Tinha apenas 3 meses no mandato presidencial, mas sob forte pressão política de aliados, de que a medida lhe daria grande popularidade e distanciamento da “Era Vargas”, que fora grande incentivador dos cassinos.

E mais, Benjamim Vargas (irmão de Getúlio), que tinha forte ligação com empresários donos de cassinos.

E, por fim, a influência de Dona Santinha, a Primeira-Dama, tinha aversão à jogatina e aos shows em cassinos. A esposa do Presidente Dutra exerceu forte pressão de bastidores para o marido fechar as casas de apostas.

Com os argumentos da moralidade e dos bons costumes cristãos, o Presidente Dutra, em uma penada, liquidou com 50 mil empregos diretos do dia para a noite.

De quebra, o mais fenomenal dos atrasos no segmento do turismo brasileiro.

Estima-se que foram perdidos mais de 50 mil empregos diretos.

Cerca de 1% da população urbana economicamente ativa ficou desempregada com a proibição dos cassinos.

Detalhe importante!

Para se jogar nos cassinos, é necessário que a pessoa tenha que fisicamente ir até o local e ter no mínimo 21 anos de idade. Coisas do passado!

Os jogos voltaram em 1970, durante o regime militar; foi criada a loteria esportiva, que se tornou muito popular.

O bordão “deu zebra” foi incorporado e virou “febre” na divulgação dos resultados no programa Fantástico, da Rede Globo.

Em 1994 a 2003, vieram as modalidades de apostas Quina, Mega-Sena, Lotomania e Lotofácil.

Correndo por fora, a Loteria Federal de números da CEF, desde 1962, nos atuais moldes.

Em todas estas modalidades, existe a necessidade de o apostador ir até a lotérica para fazer suas apostas. Paga a aposta e aguarda em casa o resultado.

Em 2023, foram regulamentadas as BETs (jogos de apostas on-line), onde se aposta de tudo.

De reboque, veio o “Tigrinho”, jogo também on-line, com valores iniciais extremamente baixos.

Conquistaram o público pelo preço e simplicidade, principalmente pessoas de baixa renda.

A princípio, parecia tudo bem.

Nestas modalidades de jogo de azar, não há necessidade de o apostador se deslocar, nem mesmo para lotéricas.

Joga-se em qualquer hora, em casa, no trabalho, no trânsito e, o pior, adolescentes e até crianças!

Será que não foram realizados estudos sociológicos de impactos na sociedade?

As motivações para liberação são sempre com argumentos da destinação dos impostos arrecadados para causas nobres e o entretenimento popular.

Isto tudo no “Mundo do antes”,

o depois é o depois!

Projetos mal elaborados, populistas e irresponsáveis terminam na “canetada”, via de regra, com motivações e interesses políticos.

Sem uma avaliação criteriosa das consequências jurídicas e custos para a sociedade.

Como se quisesse corrigir um erro cometendo outro. Diz a antiga expressão:

Dois erros não fazem um acerto.

Deu Zeeeebra!

Mesmo sem ter apostado, você já sabe quem vai pagar essa conta.

* Rogério Pons da Silva

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