Uma testemunha-chave em uma investigação de assédio sexual contra um alto funcionário da ONU (Organização das Nações Unidas) foi suspensa do cargo, no que ativistas dizem ser uma demonstração de “pura tática de intimidação”, revelou na segunda-feira o jornal britânico “The Guardian”. A etíope Miriam Maluwa, que trabalha para a organização há mais de 25 anos, testemunhou ano passado contra o diretor-adjunto da agência da ONU que luta contra a Aids, a Unaids, Luiz Loures, um brasileiro. Ela confirmou a acusação de que ele teria assediado sexualmente uma subordinada em um elevador de hotel.
Na época, Loures foi investigado internamente, mas não foi suspenso durante o período de investigação, que arquivou o caso em setembro, citando “evidências insuficientes”. Críticos dizem que o processo de apuração foi falho. Na segunda-feira, a OMS (Organização Mundial da Saúde) anunciou que vai reabrir o caso, à luz de “alegações adicionais”. Loures nega a acusação.
Em 27 de março deste ano, Miriam Maluwa foi colocada em licença administrativa de seu cargo como diretora da Unaids na Etiópia. Em uma carta da agência, ela foi informada de que essa ação não equivalia a medidas disciplinares, mas que a Unaids estaria realizando uma análise gerencial e operacional do escritório do país durante sua ausência.
A agência acrescentou que Maluwa, uma das mulheres mais graduadas da Unaids, não tinha permissão para entrar no escritório ou acessar os servidores ou documentos da agência sem supervisão. Na semana seguinte, um e-mail foi enviado para parceiros-chave, embaixadas e ministérios do governo anunciando que um diretor interino de país havia sido nomeado para seu cargo.
Miriam também foi copiada em e-mails afirmando que seu contrato havia sido rescindido, embora, mais tarde, a agência tenha lhe dito que eles foram enviados por engano. O grupo de campanha Code Blue, que apoia Miriam, disse que a agência não explicou as razões do afastamento da moça e não seguiu os processos corretos.
“O procedimento padrão, se houver uma revisão administrativa e gerencial, é que você diga ao funcionário o motivo, diga quais são as queixas contra ele e dê a ele a oportunidade de responder a essas reclamações”, disse ao “Guardian” Paula Donovan, uma das diretoras do Code Blue.
A interpretação de Paula Donovan a partir disso é que Miriam se tornou um alvo após seu papel como testemunha e sua recusa em contribuir com os esforços internos de defender o diretor da agência, Michel Sidibé, que tem enfrentado críticas generalizadas sobre supostas tentativas de interferir na investigação.
Segundo Paula, Sidibé parece tentar enviar uma mensagem ao seu pessoal: “A mensagem parece ser: ‘É isso o que acontecerá com você se eu sentir que você foi desleal ou se se tornar problemático para mim, na minha luta para manter meu trabalho’”, disse ela.
A alegada vítima no caso de Loures, Martina Brostrom, alega que Sidibé tentou suborná-la para que ela desistisse da sua queixa, oferecendo uma promoção. Sidibé nega isso, mas admitiu aos investigadores da OMS que ele havia se encontrado com Martina para sugerir “ver como encontrar realmente uma saída sem tornar isso um grande problema para toda a organização e para a credibilidade da organização, e até para você mesma”.
O episódio de assédio sexual sobre o qual Martina acusa Loures teria ocorrido em um elevador de um hotel de Bangcoc, em maio de 2015. Na sexta-feira, 27 de abril, a Unaids anunciou que o caso seria reaberto à luz de novas alegações que haviam surgido e que a investigação seria conduzida pela equipe da ONU, o escritório de serviços de supervisão interna. Martina Brostrom disse que só ouviu pela mídia que o caso estava sendo reaberto.
“Uma nova investigação interna não faz nenhum sentido para mim. Qualquer coisa aquém de uma investigação totalmente independente da ONU não será suficiente”, afirmou ela, também ao jornal britânico.
Em fevereiro, o “Guardian” relatou preocupações relacionadas à forma como a investigação foi tratada ano passado, junto com depoimentos de um grupo de mulheres que alegaram também ter sido agredidas ou assediadas por Loures. Algumas delas também disseram que tinham avisado o diretor da agência, Michel Sidibé, sobre o comportamento de seu vice.
