Cena um — Algumas semanas depois de começar a trabalhar na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, uma cidadã canadense nascida na Índia e neta de refugiados — os avós haviam deixado o Paquistão após a dissolução do Império Britânico, em 1947 — é atropelada por um táxi. No hospital, com o joelho esquerdo fraturado, ela tem um pensamento algo frequente em circunstâncias assim: “E se eu morresse, qual seria meu legado?”.
Cena dois — Em sua primeira missão, em Uganda, a funcionária da ONU recrutada pela instituição numa empresa de contabilidade para a função de auditora vê uma criança subnutrida comendo lama. Chocada, pede ajuda a um superior. Ele diz: “Lama tem ferro. É bom para os pequenos”.
Cena três — Com 34 anos de idade e apenas quatro de Nações Unidas a novata junta às próprias origens aquela pergunta que se fez quando estava internada com a resposta que lhe deu o colega em solo africano e, numa inusitada atitude, lança sua candidatura ao cargo de secretária-geral da ONU — simplesmente o topo da hierarquia da entidade, que conta com 193 países-membros.
A protagonista dos episódios narrados acima se chama Arora Akanksha, viveu as experiências descritas e, de uma hora para outra, se transformou em um improvável ruído no normalmente sereno processo de escolha do dirigente máximo das Nações Unidas.
Esclareça-se desde logo: não há no horizonte nenhum sinal de que a candidatura de Akanksha possa sair vencedora.
A intenção de disputar o posto com o atual titular da secretaria-geral da ONU, o português António Guterres, foi oficializada em fevereiro; de lá para cá, nenhum peso pesado da instituição levou a sério a pretensão da coordenadora da auditoria de finanças do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
Mas, ao contrário do que se poderia supor, isso diz mais sobre a ONU do que a respeito da até recentemente desconhecida Arora Akanksha.
Nunca alguém tão jovem almejou chegar tão longe nas Nações Unidas; muito menos com o modestíssimo currículo da indo-canadense e ainda mais, como sublinhou o jornal americano The New York Times, desafiando um secretário-geral candidato à reeleição.
No entanto, o incômodo barulho que começa a acontecer em torno de Akanksha encontra eco sobretudo porque desde sua fundação, em 26 de junho de 1945, a ONU jamais foi comandada por uma mulher — em 2016, Guterres chegou a enfrentar sete adversárias.
Diante de tal histórico, e com a eleição de 2021 em mente, a embaixadora de Honduras na entidade, Mary Elizabeth Flores Flake, enviou um documento a todos os seus pares clamando por mudanças.
“Estou escrevendo essa comunicação de um lugar de convicção, onde a defesa dos direitos iguais faz a diferença na criação de uma organização justa e equitativa e na abertura de oportunidades para mulheres em todo o mundo”, disse ela.
“Os líderes das Nações Unidas estão mais preocupados em servirem a si mesmos do que em servirem às pessoas”, criticou Akanksha em entrevista a revista Época, concedida por e-mail. E, do mesmo “lugar de convicção” de Flake — um “lugar de fala” —, observou: “Estamos 75 anos atrasados na chance de ver uma mulher no posto de liderança de uma organização que promove igualdade de gênero para todo o mundo. E o mundo está vendo a ONU não praticar aquilo que prega”.
Uma das cinco metas das Nações Unidas a serem atingidas até o ano de 2030, dentro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), é precisamente a igualdade entre os gêneros.
A escolha da nova liderança da ONU, que ocorre a cada cinco anos — e em 2016 passou a ser um pouco mais transparente, com audiência dos candidatos —, se dará em outubro. A nomeação de quem vai ocupar a secretaria-geral da instituição é feita pela Assembleia Geral, a partir de recomendação do Conselho de Segurança. Os membros permanentes do Conselho também têm direito a veto sobre o nome. A decisão é essencialmente política. Gênero é política.
Para além desse aspecto, e apesar das remotas chances de Akanksha no pleito, sua candidatura tem colocado em xeque o próprio papel das Nações Unidas em diversas frentes, como a questão dos refugiados e o destino dos gastos da entidade.
“Temos um número recorde de refugiados e de pessoas deslocadas. Nossos programas de ajuda humanitária estão aquém do esperado. E estamos observando uma desigualdade crescente. Todos dentro do sistema da ONU sabem que esses problemas existem, entretanto, por muito tempo, as falhas das Nações Unidas têm sido normalizadas”, frisou a — repita-se — neta de refugiados.
