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A ONU vê indícios de que o narcotráfico se infiltrou entre militares da Venezuela

Grandes quantidades de drogas foram enviadas para EUA e Europa com o consentimento das Forças Armadas. (Foto: Divulgação)

A ONU divulgou um relatório afirmando, pela primeira vez, ter indícios de que grupos ligados ao narcotráfico se infiltraram nas Forças Armadas da Venezuela. O tema não é novidade, segundo militares venezuelanos que fugiram do país, mas pode ter impacto no regime de Nicolás Maduro.

O relatório do Escritório da ONU sobre Drogas e Crime (UNODC) mostra que narcotraficantes transportaram grandes quantidades de drogas para Europa e EUA através de portos venezuelanos, usando aeronaves leves, por meio de voos ilegais. “Há indícios de que grupos criminosos conseguiram se infiltrar nas forças de segurança e criaram uma rede informal conhecida como “Cartel dos Sóis”, para facilitar a entrada e saída de drogas ilegais”, diz o texto.

“Falamos de um Estado falido, onde as Forças Armadas mantêm Maduro no poder por várias razões, uma delas é o narcotráfico. Oficiais do alto comando desenvolveram um poder enorme dentro do governo, principalmente nomes da Guarda Nacional Bolivariana”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo o tenente venezuelano José Colina, que vive há 16 anos exilado nos EUA.

Segundo analistas, é justamente esse apoio militar que pode sofrer caso o relatório seja usado para ações mais efetivas. “Com essa declaração apenas não é possível causar deserções nas Forças Armadas, mas se ela for usada para se tomar ações de maior peso, como divulgar o nome e sobrenome dos envolvidos, aí pode levar a isso”, explica Alberto Ray, especialista em segurança pública.

Ele ressalta que o relatório afeta de forma imediata a imagem dos militares, algo que eles sempre tentaram preservar. “As Forças Armadas tentam desvincular sua imagem de um grupo de criminosos e narcotraficantes. Uma denúncia desse tamanho tem um dano efetivo.”

O Insight Crime, grupo que monitora o crime organizado na América Latina, afirma que o termo “Cartel dos Sóis” foi usado pela primeira vez em 1993, quando dois generais venezuelanos foram investigados por tráfico de drogas. A partir de 2000, a definição passou a ser recorrente diante de diversos casos de envolvimento de militares no narcotráfico.

Segundo ele, em 2002, os militares recebiam ordens escritas para permitir que a guerrilha operasse na Venezuela. “Estava proibido enfrentá-los. A infiltração do narcotráfico nas Forças Armadas começa com o Cartel dos Sóis, porque vários generais do alto comando integravam o grupo, entre eles Henry Rangel Silva que foi ministro da Defesa, e o general Hugo Carvajal, que facilitavam o tráfico.”

O termo “sol” refere-se à insígnia dos oficiais generais – um sol significa general de brigada; dois, um general de divisão; três sóis, um general de Exército; e quatro sóis, um marechal.

De acordo com o Insight Crime, apesar do termo “cartel”, os grupos que atuam dentro do corpo militar venezuelano “não possuem hierarquia definida”. O grupo cita três acontecimentos significativos para a origem da infiltração do crime organizado no Estado venezuelano. Primeiro, o Plano Colômbia, que permitiu às forças colombianas usarem dinheiro dos EUA para sufocar as guerrilhas, que foram empurradas para dentro da Venezuela.

Quase ao mesmo tempo, ocorreu a tentativa de golpe contra Chávez, em 2002. Desconfiado da atuação da Colômbia, o presidente venezuelano enviou o Exército para policiar a fronteira, que já estava tomada de guerrilheiros e narcotraficantes.

Os subornos, que antes eram pagos a agentes de fronteira para liberar a passagem da droga, começaram a parar nas mãos dos militares. Muitos pagamentos, porém, eram feitos em mercadoria e os próprios militares tiveram de buscar um destino para a cocaína que recebiam.

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