Responsável por um terço de todos os casos diários registrados no planeta, a Índia é atulmente o epicentro global da pandemia de covid-19. Em meio à disseminação da variante B.1.617, faltam leitos, oxigênio e espaço em necrotérios.
Os holofotes se voltam para o governo do premier Narendra Modi, que há pouco mais de um mês insistia em que a pandemia havia “terminado” e que a vida poderia voltar ao pré-2020, contrariando as evidências científicas.
Pelo quinto dia consecutivo nesta segunda-feira (26), a nação do Sul Asiático bateu o recorde global de casos, com mais de 352 mil novos diagnósticos e 2.812 mortes. O Exército foi mobilizado para auxiliar no combate à crise, enviando oxigênio e equipamentos de seus estoques e convocando reservistas do setor da saúde, um dia depois de países como os Estados Unidos, a Alemanha e a França anunciarem o envio de ajuda emergencial.
As críticas à resposta do governo se acumulam, em meio às suas tentativas de silenciá-las. Após um pedido de Nova Délhi, o Twitter deletou uma série de postagens negativas sobre a gestão pandêmica do governo: entre os tuítes, havia comentários de políticos, como o porta-voz do Partido do Congresso Indiano, Pawan Khera, opositor do governo, e do membro do Parlamento Revanth Reddy.
A remoção foi registrada pelo banco de dados Lumen, do Centro Berkman Klein para Internet e Sociedade da Universidade Harvard, que coleta e analisa solicitações de retirada de material da internet. Procurado pelo projeto, o Twitter afirmou que revisou o conteúdo após “receber uma solicitação legal válida”.
O governo indiano teria mencionado 21 postagens no pedido em que citava a Lei de Tecnologia da Informação de 2000, com ênfase no artigo que trata de “proteção da soberania e integridade” do país. Em um comunicado, o Twitter disse que, se for determinado que um conteúdo é ilegal apenas em uma jurisdição específica, mas não viola as regras da rede, o acesso a ele pode ser retido exclusivamente na região em questão.
‘Pandemia derrotada’
Porta-voz do partido governista Bharatiya Janata (BJP), Gopal Agarwal disse à BBC “que o material em questão era enganoso ou poderia provocar pânico”. Críticos, no entanto, acusam Nova Délhi de censura e a gigante americana, de cumplicidade: entre as postagens deletadas, por exemplo, havia tuítes do ministro do Trabalho do estado de Bengala Ocidental Moloy Ghatak, apontando Modi como “diretamente responsável pelas mortes por covid-19”.
Para críticos, o agravamento da pandemia na nação de 1,3 bilhão de habitantes coincide com a conduta governamental caótica e negligente do premier e de seus aliados: apenas no último mês, a média de casos cresceu oito vezes e a de mortes, dez.
Em fevereiro, diante da baixa adesão às medidas de restrição sanitária, já havia indícios de que um novo surto estava à espreita. Ainda assim, o ministro da Saúde, Harsh Vardham, e seu colega da pasta de Pequenos e Médios Negócios, Nitin Gadkari, foram vistos em um evento em que a fórmula herbal Coronil era falsamente promovida como um tratamento efetivo para a covid-19.
Veículos pró-governo chegaram a publicar notícias afirmando que uma “cura” havia sido encontrada e aprovada pela Organização Mundial da Saúde, que foi a público negar a desinformação. A Associação Médica Indiana (IMA) demandou uma explicação de Vardham, questionando sua ética, mas nunca foi respondida.
Impasses
A campanha de vacinação também caminha a passos lentos: a Índia é lar do Instituto Sérum, o maior produtor de vacinas do mundo, mas apenas 8,6% de sua população recebeu ao menos uma dose do inoculante.
Diante da pressão popular, Modi suspendeu as exportações de doses e o país não entregará ao Covax, o consórcio global para a distribuição equitativa de doses, as remessas prometidas para abril e maio — o impacto será maior em vários dos Estados mais pobres do mundo.
Os Estados Unidos, que também impõem medidas protecionistas às doses produzidas em seu território, anunciaram que irão enviar insumos para a produção dos imunizantes da AstraZeneca, enquanto Nova Délhi prevê ampliar seu programa de vacinação para todos com mais de 18 anos.
O governo continuará a comprar metade da produção nacional de doses — cerca de 65 milhões — para a população com mais de 45 anos. Caberá aos Estados e ao setor privado, no entanto, adquirir vacinas para os adultos mais jovens por preços mais altos estabelecidos pelo Sérum e pelo Bharat BioNTech, as fabricantes. Enquanto Nova Délhi pagará 400 rupias pelas doses da AstraZeneca (R$ 29), Estados e hospitais privados pagarão 600 rúpias (R$ 43).
A nova política rompe com a estratégia de outras campanhas de vacinação bem-sucedidas no país, que foram centralizadas. As farmacêuticas defendem a diferença de preço apontando que conseguirão aumentar sua capacidade de produção, mas vozes reticentes temem que a mudança acentue ainda mais seu poder e a desigualdade no acesso às vacinas.
