A necropsia realizada pelo IGP-RS (Instituto-Geral de Perícias do Rio Grande do Sul) aponta que o rompimento espontâneo de um aneurisma cerebral provocou a morte da líder comunitária Jane Beatriz da Silva Nunes, 60 anos, moradora da Vila Cruzeiro, na Zona Sul de Porto Alegre. Ela faleceu na terça-feira (8), durante uma abordagem da BM (Brigada Militar) na região.
O incidente acabou provocando um protesto por parte de moradores. Segundo a corporação, tudo indicava que a idosa foi vítima um mal-súbito e foi encaminhada ao Postão de Saúde da Cruzeiro. O corpo de Jane foi velado no Cemitério João 23 e sepultado na tarde desta quarta-feira.
Em protesto, um grupo de manifestantes bloqueou o trânsito de veículos a rua Cruzeiro do Sul e queimou pneus, pedaços de madeira e um automóvel. Linhas de ônibus tiveram de ser desviadas por causa do ato e os policiais recorreram a bombas de gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes.
O laudo do IGP-RS apontou que nenhum sinal de trauma que justificasse o óbito foi encontrado no corpo de Jane. De qualquer forma, um inquérito foi aberto pela Polícia Civil para investigar o caso.
A morte da líder comunitária foi alvo de uma série de questionamentos ao longo desta semana, já que relatos de testemunhas indicaram que Jane retornava do mercado quando encontrou diversos brigadianos em sua casa. Sobre isso, a corporação alegou que os policiais estavam no local para averiguar uma denúncia – de maus-tratos – que acabou não se confirmando.
Uma vizinha acrescentou que Jane foi impedida de entrar em sua própria casa e, ao se alterar, acabou escorregando, caindo próximo a uma escada do pátio, permanecendo então desacordada. Ela deu entrada ainda com vida no posto de saúde municipal, mas não resistiu a um quadro de parada cardiorrespiratória.
A ONG (Organização Não Governamental) Themis publicou uma nota defendendo a necessidade de que a apuração prossiga:
“É imprescindível e urgente que as circunstâncias da morte de Jane sejam rigorosamente apuradas pelas autoridades competentes; que a família e a comunidade recebam o adequado apoio e respeito do Estado e que ações concretas sejam tomadas pelo Poder Público para que os direitos e as vidas das pessoas negras e periféricas não sejam mais sistematicamente violados. O nome e a história de vida de Jane não serão esquecidos. Por sua memória, exigimos justiça e reparação”.
Novo protesto
No final da tarde desta quarta-feira, a Vila Cruzeiro voltou a ser palco de manifestações por causa do incidente. Desta vez, o ato foi pacífico e contou com a participação de integrantes de movimentos sociais, vereadores e outros líderes comunitários.
Além deles, estiveram no local representantes da DPE (Defensoria Pública do Estado), incluindo as dirigentes do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos, Aline Palermo Guimarães, e do núcleo de defesa da Mulher, Bruna De Lima Dias. De acordo com o órgão, a família de Jane receberá oferta de apoio e acompanhamento.
(Marcello Campos)
