Cerca de 25 mil pessoas já podem ter sido infectadas pelo coronavírus no Rio Grande do Sul, número quase nove vezes maior do que indicado na estatística oficial. A conclusão consta nos resultados, divulgados nesta quarta-feira (13), da terceira fase da pesquisa coordenada pela UFPel (Universidade Federal de Pelotas) e SES (Secretaria Estadual da Saúde), em parceria com outras instituições.
Dos 4,5 mil testes rápidos aplicados entre os dias 9 e 11 de maio, dez pessoas testaram positivo. Destas, quatro moram em Passo Fundo (Região Central), que vem apresentando números elevados de contágio e óbito por Covid-19. As outras são de Ijuí (2), Porto Alegre (1), Caxias do Sul (1), Pelotas (1) e Santa Cruz do Sul (1).
A primeira etapa do estudo (que emprega testes rápidos) resultou em dois diagnósticos positivos, ao passo que a segunda levou a seis confirmações. Para a SES, isso indica um aumento progressivo no número de casos, porém em progressão aritmética, não geométrica (como tem acontecido no Brasil e outros países com piores cenários).
Os novos dados estimam que haja um infectado para cada 454 gaúchos – na testagem anterior houve um caso positivo para cada 769 pessoas, após uma primeira rodada essa proporção era de um para 2 mil.
“Os casos notificados representam apenas uma parcela do total, confirmando a nossa teoria do iceberg de que existe uma parte visível, representada pelas estatísticas oficiais, e uma parte submersa, que precisa ser conhecida para que sejam tomadas as melhores decisões para o seu enfrentamento”, frisou o reitor da UFPel e coordenador da pesquisa, Pedro Hallal.
Se por um lado a prevalência de pessoas com anticorpos aumentou, por outro, o número de subnotificações reduziu. Nesta última rodada, a pesquisa estimou que, para cada caso notificado, haveria nove subnotificados. Na fase anterior, foram apontadas 12 subnotificações. Pela margem de erro, esse número pode variar entre quatro e 16.
O aumento da prevalência de pessoas com anticorpos no Estado veio acompanhado de uma diminuição do número de pessoas que respeitam as orientações de distanciamento social. Entre a primeira etapa e a última da pesquisa, o percentual da população que relatou sair de casa diariamente aumentou de 20,6% para 30,4%. Entretanto, em relação à segunda rodada, subiu de 28,3% para 30,4%, percentual considerado estável.
Com a estratégia de distanciamento controlado, que passou a valer em todo o território do Estado na segunda-feira (11), após a última testagem, o governo gaúcho espera obter “um equilíbrio entre a preservação da vida e a atividade econômica, com restrições no local, no momento e na proporção que forem necessárias”.
“O Rio Grande do Sul é o único lugar no mundo onde há três rodadas de uma pesquisa com base amostral em que se consegue acompanhar e controlar de que forma caminha esse vírus”, acrescentou a titular da Seplag (Secretaria de Planejamento, Orçamento e Gestão), Leany Lemos.
Letalidade maior
A pesquisa também apresenta, pela segunda vez, a estimativa de mortalidade do coronavírus no Estado. Se o cálculo for baseado nos casos notificados (105 óbitos e 2.576 casos confirmados no dia 10 de maio), a letalidade estimada seria de 4%, ou seja, para cada 100 pessoas que contraem o vírus, quatro morrem.
Já quando o cálculo leva em consideração o total de casos estimado pela pesquisa de prevalência (24.860) e o número de óbitos confirmados (105), a estimativa de letalidade cai para 0,42%. Ou seja, seriam quatro mortes para cada mil infectados.
Sintomas mais comuns
Como novidade, o estudo chegou a resultados sobre os sintomas relatados pelas 18 pessoas confirmadas com anticorpos nas três fases da testagem. O mais comum foi a dor de garganta (22% dos casos), seguido por tosse, diarreia e alterações de olfato/paladar (17%), dificuldade para respirar (11%) e, por último, febre (6%).
Ainda em andamento, o estudo prevê pelo menos outras duas rodadas de testes e entrevistas. A próxima está prevista para os dias 23, 24 e 25 de maio. A seguinte ainda não tem data confirmada. O custo total é de R$ 1,5 milhão, com apoio da Unimed Porto Alegre, Instituto Cultural Floresta e do Instituto Serrapilheira-RJ.
(Marcello Campos)
