A Justiça Federal se prepara para uma série de julgamentos inéditos dos “barões do ouro” acusados de comandar um esquema que movimentou mais de R$ 10 bilhões e escoou cerca de 20 toneladas de minério clandestino extraído da Amazônia. A teia global desmantelada pela Polícia Federal conectou o esbulho em terras indígenas e unidades de conservação no Norte do Brasil aos cofres de refinarias na Suíça e ao polo joalheiro de Arezzo, na Itália.
Em Manaus, epicentro das investigações, as autoridades refizeram a “rota do ouro” da Amazônia até os Estados Unidos, Europa e Oriente Médio e conseguiram reunir todo o arcabouço de provas acumulado pelo Ministério Público Federal (MPF). A partir das investigações das operações Sisaque, Ricezione e Emboabas foi possível traçar a arquitetura de um esquema único e sistêmico de usurpação de bens da União e lavagem de ativos.
A engrenagem logística do grupo ruiu a partir de duas interceptações estratégicas nos pátios de aeroportos brasileiros. Em janeiro de 2020, agentes da Polícia Federal e da Receita Federal detiveram no Aeroporto Internacional de Manaus o empresário Brubeyk Garcia Nascimento ao lado dos compradores norte-americanos Frank Giannuzzi e Steven Albert Bellino, quando o trio tentava embarcar para Nova York com 35 quilos de ouro bruto amparados por notas fiscais frias.
Um ano e meio depois, em agosto de 2021, a PF interceptou um jato executivo no pátio do Aeroporto do Campo de Marte, em São Paulo, apreendendo mais 52 quilos de ouro em lingotes mantidos pelos pilotos Guilherme Crepaldi Silva e Muhammad Diarra Ndiaye, minério que seria escoado pelas empresas de Diego e Daniel de Mello rumo ao mercado europeu.
A partir dessas duas apreensões, a PF montou o quebra-cabeças de um ecossistema que operava através de etapas encadeadas, estruturadas para transformar o metal arrancado de terras indígenas e unidades de conservação em uma mercadoria aparentemente limpa, negociada em bolsas de valores, refinarias, indústrias de alta tecnologia e joalherias no exterior.
De acordo com as investigações, o primeiro elo da corrente era a extração predatória e sem licenciamento em áreas de proteção integral e territórios protegidos, como as Terras Indígenas Munduruku, Kayapó e Yanomami, além de Unidades de Conservação no Pará e em Roraima. Financiada por operadores regionais como Isaac Fuhrmann Cula no polo do Rio Tapajós, a atividade devastou o bioma com escavadeiras e lançou toneladas de mercúrio nos rios para agregar o metal bruto.
Com a matéria-prima em mãos, um dos grupos investigados acionava a engenharia da fraude para forjar uma origem legal. Em uma das operações da PF, a Sisaque, a investigação mapeou dois caminhos principais: a via das Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs), articulada por figuras como Dirceu Frederico Sobrinho, ex-presidente da Associação Nacional do Ouro (Anoro), que explorava a brecha da presunção legal de boa-fé para registrar o ouro ilícito como se derivasse de lavras regulares; e a via dos laudos falsos, estruturada no Amazonas por Brubeyk Garcia Nascimento (dono do laboratório BAMC) em dobradinha com o austríaco Werner Rydl, investigados na operação Emboabas.
O grupo emitia notas fiscais frias amparadas no patrimônio fictício de R$ 26 bilhões alegado por Rydl, maquiando o minério da floresta sob a rotulagem de “ouro reciclado ou sucata”.
Lavado no papel, o ouro então era preparado para cruzar o país. A logística emprega a aviação executiva privada, utilizando aeródromos e hangares do Sudeste como entrepostos estratégicos antes do envio ao exterior, segundo apontam as investigações e a denúncia do MPF. Já consolidado e coberto por notas fiscais avulsas, o produto entrava no sistema bancário oficial. Investigações como a Operação Sisaque desvendaram a circulação de mais de R$ 4 bilhões em notas frias por empresas de fachada, injetando os valores do garimpo direto na economia formal.
