Após o mais longo período recessivo que o País já atravessou, ainda há dúvidas se conseguiremos crescer perto de 3% este ano. Os primeiros números de 2018 de indústria, comércio e serviços vieram contraditórios. E o BC (Banco Central) sinalizou na última terça-feira (27), na ata da reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), que continuará baixando os juros, atualmente em 6,5%, o nível mais baixo da história, para estimular a economia.
Em janeiro, a produção industrial caiu 2,4%, o comércio subiu 0,9%, e os serviços tiveram retração de 1,9%. Não há reação ainda nos preços. O crédito ficou estagnado (queda de 0,2%) em fevereiro. Especialistas não têm dúvidas de que a atividade continuará crescendo, mas há incerteza sobre o ritmo.
“Ainda vai levar um tempo para o crescimento gerar inflação. A recessão foi muito profunda, temos capacidade ociosa elevada. Não se imaginava que, na saída da crise, os números fossem muito intensos. Estão dentro da expectativa diante do que foi destruído no passado”, afirma Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, que prevê crescimento de 3% com inflação baixa.
Segundo ele, o uso da capacidade instalada da indústria está em 76%, chegou a 73,2% em dezembro de 2016, o pior momento, mas, entre 2010 e 2013, a média era de 84%:
“Há espaço para crescer sem inflação. Somente em 2019, o crescimento deve pressionar a inflação.”
Flávio Castelo Branco, gerente executivo de Política Econômica da CNI (Confederação Nacional da Indústria), esperava números mais robustos depois da recessão que fez o PIB (Produto Interno Bruto) recuar perto de 8%. Nas crises anteriores, a recuperação veio mais forte e rápida.
“Temos capacidade ociosa alta, houve melhora na situação financeira de famílias e empresas, a taxa de juros vem caindo, o medo do desemprego diminuiu. Deveríamos ver uma recuperação mais intensa. Não estou negando a recuperação, mas não tem o vigor esperado em uma situação como essa”, diz Castelo Branco, que espera alta de 3% na produção industrial este ano. “Nas sondagens com a indústria, já vemos intenção de contratação.”
Desemprego alto
Um dos motivos apontados pelos especialistas para essa reação tímida é o mercado de trabalho. Apesar de a taxa de desemprego ter caído — chegou a 13,7% em março de 2017 e atualmente está em 12,2% —, ainda há 12,7 milhões de desempregados, e as ocupações que fizeram a taxa cair foram informais, o que dificulta a tomada de crédito e cria insegurança nas famílias, inibindo o consumo. Já há reação no emprego formal (foram criadas 61.188 vagas com carteira em fevereiro), mas os postos de trabalho são de salário baixo. Silvia Matos, economista da FGV (Fundação Getulio Vargas), chama atenção à qualidade do emprego, inclusive os formais. Nessa criação recente, predominaram as vagas de um salário mínimo a 1,5 salário mínimo:
“É natural que isso aconteça diante da ociosidade do mercado de trabalho, mas limita o consumo das famílias.”
Pelo cálculo da economista, a massa de rendimentos, que subiu 5,5% acima da inflação em 2017, deve ficar apenas 1,5% acima da taxa em 2018:
“Quem esperava um crescimento de 4% a 4,5% este ano realmente deve estar frustrado com os resultados. Mas nós já estávamos prevendo 3%. Apenas alteramos nossas previsões de inflação (de 3,5% para 3,3%) e dos juros, para 6,25% (estava em 6,5%). Teremos o mesmo crescimento, com inflação e juros menores.”
Thaís Marzola Zara, economista-chefe da Rosenberg Associados, espera 2,8% de alta do PIB este ano. Ela acredita que os juros devem chegar a 6% no fim do ano. Para a analista, essa recuperação oscilante já era esperada:
“De fato, há um ou outro dado que veio um pouco pior, com alguns sinais ruins, mas nada que destoe do nosso cenário de recuperação gradual para este ano. Em dezembro, o IBC-Br teve uma alta forte, era natural que houvesse alguma acomodação em janeiro (houve queda de 0,56% no indicador que é considerado uma prévia do PIB, depois de ter subido 1,16% em dezembro). Por enquanto, esses números não configuram mudança de tendência.”
