A seis dias do prazo final para a retirada das forças dos Estados Unidos e seus aliados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) do Afeganistão, reafirmado na terça-feira (24) pelo presidente norte-americano Joe Biden, milhares de afegãos seguiam lutando nesta quarta-feira (25) para embarcar em um dos aviões militares que deixam Cabul.
Muitos dos que tentam fugir trabalharam para os países ocidentais durante os 20 anos de ocupação e temem ser alvo da repressão do grupo fundamentalista Talibã, que tomou o poder no último dia 15. Segundo o Comitê Internacional de Resgate, uma organização humanitária, mais de 300 mil civis afegãos estariam nessa situação, mas nem todos se qualificam para receber vistos de saída, diante da enorme burocracia exigida. A eles se junta uma multidão de afegãos comuns que buscam, praticamente sem chances de sucesso, vagas nos voos.
Ao lado dessa situação dramática, agências internacionais de ajuda alertam para a iminência de uma crise humanitária de grande escala no país da Ásia Central, diante da suspensão da chegada de ajuda internacional.
De acordo com os militares dos EUA, que ainda mantêm o controle do aeroporto internacional de Cabul, havia nesta quarta-feira dentro das instalações cerca de 10 mil pessoas, incluindo afegãos e cidadãos de outros países. Em 24 horas, 90 aeronaves retiraram 19 mil pessoas. Desde o dia 14 de agosto, 82.300 pessoas deixaram o Afeganistão dessa forma, das quais 4.500 civis americanos, de um total de 6 mil que, de acordo com o governo de Joe Biden, pediram para ser removidos.
Ao mesmo tempo, o Talibã vem estabelecendo postos de controle em algumas das principais vias da capital, e relatos apontam que eles não estão mais permitindo que afegãos sem vistos ou passes especiais cheguem até o aeroporto. O porta-voz dos talibãs, Zabihullah Mujahid, disse na terça-feira que o novo regime pretende limitar a saída de profissionais qualificados, como médicos e engenheiros, pedindo que países como os EUA não lhes forneçam vistos.
Na confusão, muitos dos que têm visto não conseguem entrar no aeroporto e apresentar seus documentos às forças ocidentais. Entrevistado pelo jornal espanhol El País, Yussuf, portador de passaporte britânico, dava voltas no perímetro das instalações, sem conseguir entrar.
“O mundo tem que saber do sofrimento que causou aos afegãos, as falsas promessas que fizeram de que todos seriam removidos. É uma vergonha para a comunidade internacional”, disse.
Ao seu lado, Mohamed, um jornalista com nacionalidade francesa, se perguntava onde estavam os soldados da França para o ajudarem a entrar.
“Não podemos nem chegar ao lugar onde deveriam checar nossos documentos. Nos asseguraram que poderíamos sair, mas agora, a uma semana do prazo, nos apavora pensar que sejam os talibãs que confiram quem quer sair. Saberão logo quem somos e em que trabalhávamos e do aeroporto vão nos levar para a prisão.”
O Talibã já anunciou que depois do dia 31 assumirá o controle do aeroporto internacional. Nesta quarta-feira, representantes do grupo disseram que vão liberar a passagem para quem tiver vistos quando isso ocorrer, o que foi confirmado pelo secretário de Estado americano, Antony Blinken.
“Os talibãs assumiram compromissos públicos e privados de que vão proporcionar e permitir a passagem segura dos americanos, dos cidadãos de terceiros países e dos afegãos em risco a partir de 31 de agosto”, disse Blinken em entrevista coletiva em Washington.
Oficialmente, o Talibã quer retomar os voos comerciais para a capital afegã, suspensos desde que chegou ao poder. Para tal, vem conversando com diversos governos, como o a Turquia, para obter apoio operacional. Os demais aeroportos afegãos também estão paralisados, e companhias internacionais vêm evitando o espaço aéreo do país por questões de segurança.
O Talibã volta ao poder em um cenário de seca, guerra, deterioração econômica e dos efeitos da pandemia da covid-19. Segundo o diretor-executivo do Programa Mundial de Alimentos da ONU, David Beasley, 14 milhões de afegãos não têm acesso suficiente a alimentos básicos, e sem os recursos adequados – US$ 200 milhões, segundo a agência – nada poderá ser feito para salvar essas vidas.
“O povo do Afeganistão precisa de ajuda agora”, afirmou Beasley, acrescentando que, até o momento, o Talibã vem cooperando com as equipes de ajuda humanitária.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) também já advertiu para a escassez de remédios e vacinas, uma vez que não tem sido possível entregar suprimentos médicos ao Afeganistão.
Nos últimos dias, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional suspenderam o acesso do país a linhas de financiamento, alegando “falta de clareza” sobre os planos de governo do Talibã. Em 2020, o fluxo de ajuda externa representou 42,9% do Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 19,81 bilhões (R$ 106 bilhões) afegão, segundo o Banco Mundial. De acordo com os dados mais recentes, 54% dos afegãos viviam em 2016 abaixo da linha de pobreza, com menos de US$ 1,90 (R$ 10) por dia. As informações são do jornal O Globo e de agências internacionais de notícias.
