Joseph Schumpeter mostrou que o capitalismo se transforma por sucessivos processos de “destruição criativa”, nos quais novas tecnologias substituem produtos, empresas, profissões e formas inteiras de produzir. As chamadas ondas longas de inovação mostram como os ciclos econômicos parecem estar ficando cada vez mais curtos.
A primeira onda, impulsionada pela energia hidráulica e pela indústria têxtil, teria durado cerca de 60 anos. Depois vieram o vapor e as ferrovias; a eletricidade e o automóvel; a petroquímica e a aviação; o software e a internet. Agora ingressamos numa sexta onda, movida pela inteligência artificial, biotecnologia, robótica e tecnologias relacionadas à transição energética. Mais importante do que a precisão das datas é a tendência de aceleração das transformações.
Essa aceleração adquire importância especial para o Brasil, que ingressa na nova era carregando antigas deficiências de educação, produtividade e capacidade de inovação. Durante boa parte de nossa história, conseguimos crescer apesar delas, apoiados em diferentes momentos na expansão demográfica, urbanização, commodities, crédito e consumo. Na economia que está surgindo, entretanto, essas compensações serão cada vez menos suficientes, porque conhecimento e capacidade de adaptação passam a determinar uma parcela crescente da competitividade das pessoas, das empresas e dos países.
A inteligência artificial torna o problema ainda mais complexo ao reduzir drasticamente o custo de determinadas capacidades cognitivas. Produzir um texto, traduzir um documento, analisar milhares de dados, escrever códigos ou elaborar uma apresentação são tarefas que passaram a consumir uma fração do tempo necessário poucos anos atrás. Isso pode produzir a ilusão de confundir facilidade de acesso à informação com aquisição de conhecimento.
O Brasil chega a essa revolução sem ter resolvido satisfatoriamente os problemas da educação básica. Pretendemos incorporar ferramentas intelectualmente poderosas a uma sociedade na qual milhões de pessoas ainda apresentam dificuldades de interpretação, raciocínio matemático e formação científica. A tecnologia pode ajudar a diminuir essas deficiências, mas também pode ampliá-las, porque quem possui melhor formação tende a utilizar instrumentos poderosos com maior capacidade de julgamento e, consequentemente, extrair deles ganhos maiores de produtividade.
Há, porém, um aparente paradoxo nessa transformação. Quanto mais poderosa se torna a tecnologia, maior pode ser o valor de determinadas competências essencialmente humanas. Pensamento crítico, criatividade, comunicação, colaboração, liderança, capacidade de julgamento, curiosidade e disposição para aprender continuamente não precisam competir com a inteligência artificial; são justamente as competências que permitem utilizá-la com maior inteligência. O profissional mais valioso poderá não ser aquele que sabe mais do que a máquina, pretensão cada vez mais difícil, mas aquele que sabe formular melhores perguntas, avaliar respostas, estabelecer relações e tomar decisões diante da incerteza.
Nosso País precisa melhorar substancialmente a educação básica, aproximar universidades e empresas, estimular pesquisa e inovação, valorizar professores e construir mecanismos permanentes de atualização profissional. Deve também compreender que educação não poderá mais ser uma etapa concentrada nos primeiros vinte anos da vida, porque numa economia em transformação acelerada aprender e reaprender serão atividades permanentes.
Todas as grandes revoluções tecnológicas produziram vencedores e perdedores, e algumas nações souberam aproveitar esses momentos para saltar etapas de desenvolvimento enquanto outras ficaram para trás. Desta vez há um agravante: o tempo disponível para reagir está diminuindo.
Se as ondas anteriores concediam décadas para adaptação, a inteligência artificial pode comprimir esse período para poucos anos. O Brasil não deve continuar preparando pessoas, empresas e instituições para um mundo que deixou de existir.
(Instagram: @edsonbundchen)
