Aos 91 anos, a atriz Sonia Zagury vive no Retiro dos Artistas cercada de memórias e afeto. Vista recentemente na reprise de “Terra Nostra’’, na TV Globo, como a cozinheira Antônia, da mansão de Francesco (Raul Cortez), ela nasceu no Marrocos e se tornou atriz só a partir dos 50 anos, depois de construir uma carreira na área executiva. Ao jornal Extra, ela falou sobre amadurecimento, saudades, coragem e o desejo de seguir ativa: “Nunca titubeei”. Confira abaixo alguns trechos da entrevista.
– Você realizou o sonho de ser atriz aos 50 anos, numa idade em que muita gente acredita que já passou da hora de mudar de vida. Como foi essa decisão? “Eu tinha esse desejo dentro de mim a vida inteira. Trabalhava como executiva, era secretária executiva trilíngue, trabalhei na Embaixada Americana, no Copacabana Palace… Mas o lado artístico sempre esteve muito forte em mim. Quando me aposentei, comecei a fazer teatro por prazer. Eu não acreditava que fosse trabalhar profissionalmente como atriz. Mas aconteceu.”
– As pessoas acharam que você estava louca? “Eu não permitia que as pessoas achassem o que quisessem. Eu fazia o que queria fazer. E meus pais sempre me apoiaram.”
– Não teve medo? “Nunca titubeei. Quando decidia uma coisa, era aquilo e acabou.”
– Qual foi a atitude mais corajosa da sua vida? “Foi essa de me jogar no mundo artístico aos 50 anos. Consegui.”
– Um de seus trabalhos foi “Terra Nostra’’ (1999/2000), reprisada recentemente na TV Globo. Que recordações você guarda? “‘Terra Nostra’ foi há mais 25 anos. Rever trouxe recordações muito boas. As pessoas me ligavam, mandavam mensagens dizendo que estavam matando a saudade de me ver na TV. Eu contracenava muito com a Ângela Vieira e o Raul Cortez, que era um ator maravilhoso. Trabalhar ao lado dele foi um prazer enorme. Também já trabalhei com Tony Ramos, Edson Celulari… É bom se ver mais jovem, em ação. Não é uma saudade melancólica. Eu gosto de apreciar o que fiz na vida.”
– Você nasceu no Marrocos. Que lembranças guarda da infância? “Lembro de tudo. Vivi lá até os 11 anos, durante a Segunda Guerra. Tivemos racionamento, bombardeios, ocupações nazistas… Houve momentos difíceis. Eu era judia e precisei dizer que era católica para conseguir estudar num liceu feminino. Mas também tive uma infância feliz. Brincava de amarelinha, pulava corda, fazia balé e participava dos espetáculos de fim de ano.”
– E como foi chegar ao Brasil? “Eu já tinha o Brasil dentro de mim porque meus pais falavam português em casa. Quando cheguei, entendia tudo, mas não falava. Fiz questão de aprender direito. Tanto que passei em primeiro lugar em português na escola.”
– Você se considera uma pessoa disciplinada? “Sempre fui muito correta. Isso me ajudou muito na vida profissional também.”
– Hoje você tem 91 anos e mora no Retiro dos Artistas. Como é sua rotina? “Aqui eu encontrei o que estava precisando: gente. A pandemia me deixou muito sozinha. Eu morava há mais de 50 anos no mesmo apartamento no Leblon e comecei a me sentir muito isolada. Depois de uma queda no banheiro, percebi que não dava mais para ficar sozinha.”
– Mesmo assim, você continua muito ativa? “Faço tudo o que posso fazer aqui no Retiro. Participo de palestras, entrevistas, leituras dramatizadas. Fiz até curso de dublagem. Nunca imaginei fazer isso aos 90 anos. A terceira idade vai até os 90 anos. Depois começa a longevidade.”
– E o que você deseja para essa fase? “Quero continuar sendo uma pessoa ativa. O mais importante para mim é continuar lúcida. Eu sou otimista. As pessoas que vivem reclamando da vida só sofrem. Eu procuro viver da melhor forma possível.” As informações são do jornal Extra.
