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A trajetória de corte de juros prevista pelo mercado é incompatível com o cumprimento da meta de inflação, definida em 3%

A guerra no Oriente Médio está estreitando o espaço para cortes de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

A guerra no Oriente Médio está estreitando o espaço para cortes de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Não deve impedir uma nova baixa em junho, mas pode causar um estrago importante no orçamento do ciclo de distensão monetária.

O Copom, que baixou a meta da taxa Selic de 14,75% ao ano para 14,5% ao ano, divulgou as suas novas projeções de inflação. Não são boas. A inflação estimada para 2027, ano que está no centro do radar da Selic, subiu de 3,3% para 3,5%.

O recado básico dessa projeção é que a trajetória de corte de juros prevista pelo mercado é incompatível com o cumprimento da meta de inflação, definida em 3%, no horizonte relevante de política monetária.

O fato particularmente negativo é que o mercado, já colocando nas contas que a guerra está causando um estrago na inflação, passou a trabalhar com um cenário com menos cortes na taxa Selic.

Até o início da guerra, em fins de fevereiro, o mercado esperava que o Copom cortasse os juros em 3 pontos percentuais ao longo deste ano, de 15% ao ano para 12% ao ano. De lá para cá, passou a prever um ciclo menor, de apenas dois pontos percentuais, que faria a taxa Selic terminar 2026 em 13% ao ano.

O Copom refez as suas contas e chegou à conclusão de que, se a Selic cair a 13% ao ano, como agora prevê o mercado financeiro, ele não vai cumprir o seu mandato de colocar a inflação na meta num período de seis trimestres.

Em outros tempos, uma projeção de inflação como essa seria uma sinalização de que o ciclo de corte de juros será menor. Agora, não é mais, por duas razões. Primeiro, o BC tirou peso das projeções de inflação como sinalizador de cortes de juros desde a passagem de Diogo Guillen pela sua diretoria de Política Econômica.

Segundo, e mais importante: o Copom está enfatizando ultimamente na sua comunicação que o cenário é mais incerto que o usual e, portanto, as projeções de inflação são menos confiáveis. Essa incerteza é o que tem levado o Copom a não se comprometer com passos futuros, dizendo que tomará uma decisão a cada reunião com os dados que estiverem disponíveis.

Mas não dá para ignorar completamente as projeções de inflação de longo prazo. Na sua última fala pública, o diretor interino de Política Econômica do BC, Paulo Picchetti, disse que a incerteza ou piora no balanço de riscos para a inflação não impediriam uma eventual queda da Selic — que, de fato, ocorreu —, mas poderiam afetar o tamanho do ciclo.

A melhor ideia que o mercado pode ter do tamanho do ciclo, neste momento, é dada pelas projeções de inflação do Banco Central no horizonte relevante de política monetária — que pioraram de março para cá, apesar de embutirem como condicionante um ciclo mais breve de distensão monetária.

Há muita incerteza sobre a guerra, mas existem coisas muito palpáveis afetando as projeções de inflação para 2027. O Copom reconhece, no comunicado, que a inflação cheia e as medidas subjacentes se aceleraram ultimamente. Também está havendo uma deterioração nas expectativas de inflação de prazo mais longo.

O quadro inflacionário pode melhorar, evidentemente, se houver uma reversão rápida do conflito no Oriente Médio, com o recuo do preço dos combustíveis — ou se a guerra provocar uma desaceleração mais forte da economia, por meio do canal da incerteza econômica.

E por que, apesar da projeção acima da meta, o Copom dá sinais de que vai seguir cortando os juros? A forma mais fácil de explicar os motivos seria publicar uma projeção condicional de inflação com juros constantes. Provavelmente, isso apontaria que há gordura suficiente para garantir o cumprimento da meta. As informações são do jornal Valor Econômico.

 

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