A cada três anos, a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) divulga os resultados de uma avaliação internacional que mede o desempenho de jovens de 15 anos em matemática, leitura e ciências. Os dados mais recentes, publicados no último dia 8, eram aguardados com expectativa de recuperação após a forte queda registrada na rodada anterior, realizada logo depois da pandemia.
No entanto, não foi isso que aconteceu. Nos países ricos, principal foco do levantamento, as notas caíram novamente nas três áreas avaliadas, ampliando o alerta sobre os impactos persistentes da pandemia na aprendizagem.
Em leitura, a queda está, na verdade, se acelerando. Esses dados sugerem que existem fatores de longo prazo pressionando para baixo o desempenho escolar e que, sem uma correção rápida, as habilidades dos alunos podem ainda chegar a níveis mais baixos. Qualquer pessoa preocupada com os jovens de hoje —e com as economias de amanhã —deveria estar alarmada.
O Pisa mede as habilidades dos estudantes quando eles se aproximam do fim da escolarização obrigatória. Ao longo dos anos, aumentou o número de sistemas educacionais participantes. Os testes mais recentes foram aplicados nos 38 países-membros da OCDE e em outros 53 locais, muitos deles economias em desenvolvimento. Os resultados são usados para criar uma espécie de ranking internacional.
Neste ano, como em quase todas as edições desde 2000, os sistemas educacionais asiáticos dominam o topo da classificação. As crianças da China —que participam pela primeira vez desde 2018— superaram quase os demais países, embora as pontuações sejam distorcidas pelo fato de os testes serem aplicados apenas em quatro províncias ricas.
Em ciências e matemática, os estudantes chineses obtiveram resultados cem pontos acima da média dos países da OCDE. Como regra geral, considera-se que 20 pontos correspondem aproximadamente ao ganho de aprendizagem de um aluno médio ao longo de um ano inteiro. Na sequência aparecem estudantes de Singapura, Macau, Taiwan e Japão.
A Estônia continua parecendo ser o melhor sistema educacional do Ocidente. A Turquia está avançando muito rapidamente. E há uma notícia animadora para o Reino Unido, cujos jovens agora estão entre os dez primeiros do mundo nas três áreas avaliadas. Em comparação com três anos, o Reino Unido melhorou seus resultados em ciências e manteve os de leitura e matemática praticamente estáveis. Isso conta como um bom resultado quando muitos outros países estão registrando quedas.
Ainda assim, quando se amplia o olhar, a história é de declínio de longo prazo. As notas médias dos 23 países-membros da OCDE que participaram de todas as edições do Pisa atingiram um pico por volta de 2012 e vêm caindo desde então. Em matemática e leitura, os jovens de 15 anos desses países agora apresentam um desempenho equivalente ao que poderia ter sido alcançado por estudantes de 14 anos uma década atrás.
Os dados dos Estados Unidos são prejudicados pelas baixas taxas de resposta, embora as informações disponíveis indiquem que, na rodada mais recente de testes, as pontuações em leitura despencaram em linha com a tendência observada nos países ricos.
Nos países em desenvolvimento, o cenário é um pouco menos sombrio, porque o desempenho já parte de níveis mais baixos. Mas, mesmo em muitos desses locais, as notas em matemática e leitura estão caindo.
As crianças que já estavam entre as que apresentavam pior desempenho estão ficando ainda mais para trás. Entre os sistemas educacionais, a diferença entre os estudantes de baixo e alto desempenho é agora a maior já registrada pelo Pisa em todas as áreas avaliadas. Cerca de 20% dos jovens de 15 anos nos países da OCDE são considerados alunos de baixo desempenho simultaneamente em leitura, matemática e ciências —ante 16% quando os testes foram realizados quatro anos atrás.
A OCDE afirma que esses jovens terão dificuldades para compreender qualquer coisa além dos textos mais simples ou para entender uma conta de serviços públicos.
O que está causando esse declínio? O impacto persistente da pandemia tem um papel. Os jovens que participaram dos testes do Pisa neste ano tinham cerca de dez anos quando a Covid-19 chegou. É possível que tenham sido mais prejudicados pelas interrupções daquele período do que adolescentes que já estavam mais avançados em sua trajetória escolar.
A pandemia também criou novos problemas, como o aumento das faltas às aulas, que continuam sem solução. As taxas de faltas continuam muito mais altas do que antes da disseminação da Covid, por razões bastante debatidas. Nos países ricos, cerca de 15% dos alunos faltam pelo menos um dia de aula no ensino primário a cada duas semanas, ante cerca de 10% em 2019; as faltas também aumentaram no ensino secundário. Mesmo a perda de alguns dias de aula pode ter um grande impacto nas notas.
No entanto, a queda nas pontuações também vai intensificar preocupações antigas sobre o impacto da tecnologia na aprendizagem das crianças —e, em particular, sobre suas habilidades de leitura. Telefones onipresentes e o amplo acesso às redes sociais fazem com que os jovens tenham menos prática em compreender textos complexos, afirma Andreas Schleicher, chefe da área de educação da OCDE.
Schleicher aponta para o aumento do número de participantes classificados como “leitores apressados”, que passam rapidamente pela avaliação de leitura, mas erram muitas das respostas.
As telas estão afastando as crianças dos livros: o número de crianças de nove anos nos Estados Unidos que dizem ler por prazer caiu de quase 60% na década de 1990 para 37% atualmente. A queda na proficiência em leitura pode estar prejudicando as notas em outras disciplinas, pois ler bem também é fundamental para avançar em matérias como matemática e ciências.
Enfrentar esses desafios exige políticas educacionais de primeira linha. Mas, em uma ampla gama de questões, os ministérios da educação parecem estar falhando em responder a esses desafios. Schleicher teme que as escolas tenham se tornado “complacentes” e que estejam cada vez mais inclinadas a dizer aos alunos e aos pais que “um trabalho medíocre é ótimo”. As informações são da revista The Economist.
