Após o tumulto que deixou sete afegãos mortos, segundo números atualizados, o aeroporto de Cabul voltou a operar nesta terça-feira (17), sob comando dos Estados Unidos. Americanos e cidadãos de outros países aliados são removidos por aviões militares, enquanto colaboradores afegãos, como tradutores e prestadores de serviços essenciais, vêm ficando para trás.
A retomada das atividades no Aeroporto Internacional Hamid Karzai ocorreu após soldados americanos e de nações aliadas retirarem das pistas centenas de afegãos que, desesperados, foram para o local em busca de voos de fuga, agarrando-se a aviões militares que taxiavam na pista. Além dos voos militares, disse o general William Taylor, do Pentágono, alguns aviões civis também estão decolando.
Apesar de o dia 31 de agosto ser a data derradeira para que seus militares deixem o Afeganistão, os americanos mantiveram o controle do aeroporto e do espaço aéreo de Cabul após o Talibã retomar o poder. Impulsionado por uma ofensiva relâmpago, o grupo voltou ao palácio presidencial no domingo, horas após o presidente pró-Ocidente Ashraf Ghani fugir do país, quase 20 anos após o início da invasão americana, em outubro de 2001.
Na tarde desta terça, o porta-voz da Secretaria de Defesa, John Kirby, disse que nas 24 horas anteriores os EUA retiraram de Cabul entre 700 e 800 pessoas, incluindo cerca de 150 americanos, além de outros estrangeiros e alguns afegãos qualificados para receberem vistos especiais. À noite (madrugada de quarta-feira no Afeganistao), autoridades americanas informaram que cerca de 1.100 cidadãos americanos, residentes permanentes e suas famílias foram retirados do país nesta terça-feira. Segundo o conselheiro de Segurança Nacional, Jake Sullivan, as remoções podem continuar até o fim deste mês, e Washington conversa com o Talibã para acertar os detalhes e o cronograma.
A prioridade de remoção é para americanos e outros cidadãos estrangeiros, já que na segunda os afegãos foram impedidos de entrar nos voos dos EUA. As 640 pessoas levadas ao Qatar no cargueiro C-17 no domingo foram uma exceção, após invadirem a aeronave e a tripulação decidir seguir viagem.
Apesar da corrida ocidental para retirar seus cidadãos, contudo, o Talibã não fez qualquer ameaça concreta. Em busca de reconhecimento internacional, sua retórica é de que não atacará afegãos ou cidadãos estrangeiros e respeitará os direitos das meninas, mulheres e minorias, algo questionado por ativistas.
Segundo Jake Sullivan, o conselheiro de Segurança Nacional americano, o Talibã disse que garantirá que os civis consigam chegar ao aeroporto com segurança.
Horas antes, contudo, o ministro de Relações Exteriores alemão, Heiko Maas, disse que o grupo vem impedindo a saída de afegãos que trabalharam com as forças ocidentais.
A retirada dessas pessoas é um problema para todos os países da Otan que participavam da invasão, mas principalmente para os americanos. Segundo o Comitê Internacional de Resgate, uma organização humanitária, mais de 300 mil civis afegãos tiveram algum tipo de filiação com a missão dos EUA nas últimas duas décadas. Apenas uma parcela não especificada deles se qualificaria para vistos especiais de imigração, contudo, diante da imensa burocracia.
Para serem englobados pelo programa, os afegãos precisam comprovar que foram empregados por ao menos dois anos pelo governo americano ou entidades associadas. Outras das 14 etapas incluem comprovar que estão em risco, que prestaram serviços essenciais, e apresentar uma carta de recomendação de um supervisor americano.
O tempo de processamento é em média de três anos, apesar de o Congresso americano ter estipulado que deveria ser de apenas nove meses. Alguns esperam ainda mais: “Nós temos clientes que se candidataram há 10 anos”, disse Betsy Disher, diretora de estratégia do Projeto de Assistência para Refugiados Internacionais. “Alguns se candidataram nas últimas semanas por preocupações com suas próprias vidas.”
Desde 2014, mais de 15 mil cidadãos afegãos e suas famílias foram levados para os EUA, de um total de 34,5 mil vistos autorizados. Há cerca de 18 mil pessoas com pedidos pendentes, número que deve aumentar nas próximas semanas.
Desde julho, a Casa Branca retirou apenas 2 mil tradutores e suas famílias, cujos pedidos já haviam sido aprovados. O último voo com afegãos decolou no domingo e, desde então, as viagens foram suspensas.
Em seu pronunciamento na segunda-feira, o presidente Joe Biden disse ter planos de retirar mais aliados afegãos “nos próximos dias”, mas não informou detalhes. Está previsto, segundo o jornal El País, que cerca de 750 intérpretes sejam removidos nesta semana e levados para o estado americano da Virgínia. As informações são dos jornais O Globo e The New York Times.
