Ainda há alguns lapsos na investigação sobre o vírus da zika, como a comprovação de que ele de fato causa microcefalia em bebês, mas a corrida por uma vacina já movimenta laboratórios e farmacêuticas pelo mundo. A OMS (Organização Mundial da Saúde) relata que existem ao menos 15 iniciativas para desenvolver a vacina.
O processo, porém, ainda tem que percorrer um longo caminho. Não teremos tanta sorte quanto no caso da epidemia causada pelo vírus H1N1 em 2009 – a vacina ficou pronta apenas seis meses após a identificação do vírus. “A tecnologia já estava incorporada, e o método de inativação do vírus, bem estabelecido. Havia fábricas produzindo vacina contra gripe em várias partes do mundo”, relata a infectologista Esper Kallas.
Para fazer a vacina da zika, saem na frente os grupos que já desenvolveram, ainda que experimentalmente, vacinas contra outros vírus da mesma família do zika (a dos flavivírus), como os que causam dengue, febre amarela e encefalite japonesa.
Já se tem ideia de como é a epidemiologia e o padrão de espalhamento dessas arboviroses (transmitidas por artrópodes, como o Aedes aegypti ). Também será mais fácil estimar quantas pessoas devem participar dos testes e o que esperar de efeitos colaterais.
A francesa Sanofi, primeira a obter licença para vender uma vacina contra dengue, já divulgou sua intenção de entrar na corrida imunológica. A ideia da empresa é justamente usar a mesma plataforma da vacina da dengue. O método consiste em substituir partes do vírus da febre amarela para que ele adquira a “cara” do vírus da zika.
Segundo a Sanofi, já houve discussões com o governo brasileiro para montar uma parceria e é esperado uma aceleração dos trâmites regulatórios, um dos pontos marcantes no caminho percorrido pelas vacinas contra a dengue no País.
A burocracia é uma preocupação de Esper, que diz ter sofrido com as pendências levantadas na avaliação dos relatórios do estudo da vacina brasileira da dengue. “Cada relatório é uma novela.” A expectativa é que, com a urgência da situação, haja pressão para que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e a Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) consolidem uma “via rápida” de análise.
Mão na massa.
A dificuldade no caso da dengue era fazer uma vacina que protegesse contra todos os quatro sorotipos do vírus. A zika, por sorte, tem só um, o que deve facilitar o processo.
Até agora, porém, houve poucos relatos de testes em animais. Em um anúncio independente, sem grande respaldo científico, a farmacêutica Inovio (EUA) diz ter imunizado camundongos com uma vacina de DNA.
A indiana Bapta Pharma tem duas possíveis candidatas em vista: uma recombinante atenuada e uma inativada, com vírus morto. A empresa afirma que os testes em animais já começaram.
No Instituto Butantan, grupos de pesquisa foram reorganizados para tentar produzir a vacina, um teste rápido que detecte a zika além da fase de infecção aguda e um soro antizika que poderá ser usado para tratar grávidas infectadas. O Butantan deve entrar com dois cavalos no páreo: uma vacina com vírus atenuado, e outra baseada em vírus inativado.
Apesar do anseio da população e do anúncio por parte do ministro da Saúde, Marcelo Castro, de que os testes em humanos poderiam começar em um ano, o mais provável é que a maior parte das vacinas leve mais de três. (AG)
