Entre 1997 e 2007, um grande número de brasileiros deixou o País para morar no exterior. Foi uma das maiores debandadas da história, perdendo apenas para o ritmo registrado no período da pandemia. Naquela época, muitos desses emigrantes estavam na casa dos 20 anos, buscando uma carreira. Vários conseguiram se firmar em outros países, construíram vidas profissionais de sucesso, mas, agora, com 40, 50 anos, uma boa parte deles está voltando.
“Não temos um estudo quantitativo fechado, que dimensione essa volta, mas a nossa percepção como headhunters é de um aumento relevante na presença de brasileiros que estavam trabalhando fora e passaram a considerar o retorno ao Brasil”, diz Carlos Eduardo Altona, cofundador da Exec, consultoria de recrutamento executivo. “Nos últimos 12 a 18 meses, esse perfil aparece com muito mais frequência nas nossas conversas com executivos. Estimaria um aumento de 30% a 50% em relação ao padrão observado nos anos anteriores”, diz.
Os Estados Unidos foram o principal destino desses brasileiros no começo dos anos 2000. Naquele período, a população de brasileiros dobrou de tamanho, passando de 1,5 milhão para 3 milhões, segundo o Ministério das Relações Exteriores. Muita gente também foi para a Europa, para o Japão ou para a Austrália.
Um dos motivos que têm feito brasileiros voltarem é o aumento do custo de vida no exterior. O retorno da jornalista Patrícia Matos é um exemplo disso. Ela participou desse movimento migratório nos anos 2000 e voltou para o Brasil recentemente. Patrícia foi morar nos EUA em 1999 para fazer um MBA e acabou ficando. Fez carreira em companhias de conteúdo para o mercado de ações e investimentos, como o Financial Times. Morava em Manhattan e vinha ao Brasil uma ou duas vezes por ano.
Depois da pandemia, entretanto, o cenário mudou, conta ela. Vieram a guerra da Ucrânia, o agravamento das mudanças climáticas, as tarifas do presidente Donald Trump e o conflito com o Irã. Todas essas questões implicaram no aumento do preço do petróleo, dos fertilizantes e dos produtos importados – com tudo isso se traduzindo em aumento do custo de vida.
Nos Estados Unidos, a inflação anual saltou de pouco mais de 1% em 2020 para a casa dos 8% em 2022. Na prática, tudo subiu. “Se alguém vai combinar um jantar com amigos, a escolha é por um restaurante ‘affordable’ (com preço acessível). Comprar roupas? Carne? Só se for a um preço ‘affordable’” , explica ela.
O valor do aluguel do estúdio em Manhattan no qual Patrícia morava mostra isso. Ela pagava US$ 2,9 mil por mês (cerca de R$ 14,7 mil). Mas a empresa dona do imóvel pediu o apartamento de volta, assim como outras unidades no mesmo prédio, para reformar e vender para investidores que alugarão novamente o imóvel, mas por muito mais. “O apartamento acima do meu, igualzinho ao meu, passou por esse processo e foi alugado por cerca de US$ 4,4 mil (R$ 22 mil)”, conta.
Essa alta dos preços não é exclusividade americana. Matheus Marteli emigrou no início dos anos 2000 para a Austrália. Depois, mudou-se para Londres, onde morou por mais de duas décadas. “O preço do aluguel lá dobrou depois da pandemia”, conta o profissional de marketing e planejamento de mídia.
Ele saiu do Brasil aos 23 anos para estudar inglês por três meses, mas foi ficando, chegou a fazer mestrado em marketing e trabalhou em grandes empresas, como a loja de departamentos Harrods, as marcas de luxo Prada e Gucci, além da rede de supermercados Tesco, onde era o responsável por campanhas publicitárias.
No ano passado, decidiu voltar. “O poder de compra lá é maior que o daqui. Mas caiu muito nos últimos anos, a ponto de não valer mais a pena ficar longe da família”, diz. (Com informações do jornal O Estado de S. Paulo)
