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Aluna de 12 anos vítima de abuso sexual no colégio já havia sofrido dois ataques

Adolescentes abusadores de uma menina de 12 anos se vangloriam do crime nas redes socais enquanto mães se revoltam com a omissão da escola e aguardam a ação das autoridades. (Foto: Reprodução)

X. aprendeu aos 12 anos que violência sexual, agressão física e discriminação podem acontecer até em uma das escolas mais respeitadas do País. A menina, aluna do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, foi agredida sexualmente três vezes neste ano por colegas. Os acusados estudam na mesma instituição, mas são mais velhos do que a vítima – têm idades entre 15 e 17 anos.

Caso é mais grave do que a versão dada pelo colégio. 

A direção do colégio admitiu o caso e impediu que os alunos continuem matriculados em 2016, mas permitiu que concluíssem o atual ano letivo.  Oficialmente, a Coordenadoria de Comunicação da escola informou que os três estudantes foram expulsos após terem feito um vídeo sexual com uma aluna e divulgado o material pela internet. A escola informou ainda que a estudante teria consentido a gravação. Mães de estudantes do colégio, no entanto, desmentiram o consentimento e revelaram ao que o caso é muito mais grave do que a versão oficial da escola.

“Em agosto minha filha impediu que um rapaz abusasse de X. no pátio do colégio. Ele estava em cima dela e roçando nela”, resumiu a mãe de outra aluna. Indignada, ela foi com outras sete mães pedir providências à direção da unidade. Em 12 de agosto, o grupo foi recebido pelo diretor Bernadino Matos e por outros funcionários administrativos. “Eles nos disseram que isso não era problema nosso, que não tinha acontecido com os nossos filhos e que o jovem não seria denunciado ao Conselho Tutelar, que a unidade tomaria apenas medidas pedagógicas para resolver o caso”, lembrou uma das mães.

Escola não acionou o Conselho Tutelar. 

Segundo ela, a escola teria suspendido o garoto suspeito. “Queríamos que o Conselho Tutelar tivesse sido acionado. Não pode acontecer algo assim dentro de uma unidade escolar”, completa a mãe. Quando fez a denúncia à direção do colégio, uma das mães encontrou com X. e disse ter notado a menina tremendo e cabisbaixa. A mulher desconfiou. “A menina me contou que já havia sido forçada a fazer sexo oral em outro menino no início do ano, do lado de fora da escola”, contou.

As denúncias, que por si só já eram graves, só tiveram punição após o terceiro caso de abuso de X. vir à tona. “Em setembro, o mesmo menino acusado de tentar abusar dela na escola a chamou para ir à Quinta da Boa Vista, e abusou dela”, relatou a mãe de uma aluna. Um terceiro garoto filmou e divulgou no WhatsApp no dia 10 de setembro.

Vítima humilhada e acuada. 

Acuada, a menina não contou nada a seus pais, que só souberam dos fatos após a direção do Pedro II tomar conhecimento do vídeo. “Chamaram eles e disseram: ‘Olhem, pais, sua filha fez um vídeo de sexo que caiu na internet’. Foi muita irresponsabilidade”, acrescentou a mulher.

A Justiça brasileira, em casos recentes de estupro de vulnerável (menores de 14 anos), considerou a “presunção de violência”, segundo especialistas. Advogados esclarecem que, mesmo os acusados também sendo menores, com idades entre 15 e 17 anos, tendo consentimento ou não da vítima, qualquer prática sexual com X. é ato infracional análogo ao crime de estupro e cabível de medida socioeducativa.

Na semana passada, o reitor do Colégio Pedro II, professor Oscar Hallac, decidiu não renovar a matrícula dos rapazes envolvidos no caso. No entanto, quando a reportagem questionou se a escola estava dando apoio à estudante e sua família, se o diretor da unidade de São Cristóvão da instituição continuaria no cargo e se a escola tomaria providências para evitar que casos semelhantes se repitam, a reitoria do colégio respondeu que a direção não entraria em detalhes, uma vez que o episódio “envolve menores”.

Escola se esquiva de falar sobre o caso, Conselho Tutelar vai agir. 

Em nota, o colégio afirma que “encontra-se impedido de fazer menções a respeito do caso” e “solicita a compreensão” da imprensa. “O tema não permite, por motivos óbvios, a divulgação plena do fato. Solicito suas desculpas, mas, em proteção dos jovens, não divulgaremos detalhes”, disse o reitor. O drama de X. também foi levado aos Conselhos Tutelares dos locais em que os jovens moram.

“Recebemos o caso do jovem que fez a filmagem na Quinta da Boa Vista”, afirma Wilton Marques, conselheiro de Vila Isabel. “Se ficar comprovado o ato análogo a estupro, os alunos devem passar por medida socioeducativa”, diz o conselheiro.

Perversidade. 

Os alunos acusados de envolvimento no abuso sexual da colega de 12 anos se vangloriam, na internet, de tirar a virgindade de meninas. Seriam quatro ao todo, afirma uma das postagens. O comportamento dos estudantes já havia sido analisado pela direção da escola e por uma comissão de pais no mês passado.

Na época, um grupo de familiares pediu que os jovens não fossem punidos com a expulsão do colégio. Em nota, a Comissão de Pais/Responsáveis de Alunos do Colégio Pedro II afirmou que “está em contato permanente com a direção, sugerindo outras ações para esclarecimento da comunidade escolar”.

Perseguição a quem apoia a vítima. 

Uma mãe, amiga da família da vítima, chegou a denunciar no Facebook a atitude dos outros pais que defendiam os garotos e contou que sua filha está sofrendo perseguição por se solidarizar com a vítima. “Desde o dia 18 de setembro, as duas não estão frequentando as aulas. Minha filha defendeu X. e foi ameaçada. Ela está com medo de ir para as aulas.” Os menores que abusaram de X. continuam a frequentar a escola e a mulher ainda acusa: “Eles fazem parte de uma gangue, vendem drogas e cometem delitos dentro da unidade, ninguém faz nada”.

Segundo ela, o jovem que abusou de X. na Quinta da Boa Vista se disse vítima. “É repugnante, ele entrou no grupo de pais para dizer que a vítima foi ele. Está denegrindo a imagem dela. Já não basta o abuso sexual?”, questiona. Com medo de sua segurança e a da filha, ela não quer mais que a menina volte para unidade São Cristóvão II. “Estou pedindo a transferência da minha filha”, conta.

O caso está sendo investigado pela Delegacia da Criança e Adolescente Vítima, que até o fim desta semana ouvirá todos os menores envolvidos. “Já ouvimos X. e os pais dela. Aguardamos os outros adolescentes para dar um posicionamento”, afirma Cristiana Onorato, titular da especializada. (AD)

 

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