A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou nesta segunda-feira (19), a realização de um estudo clínico para avaliar a segurança e a eficácia do medicamento proxalutamida no tratamento da covid-19. O estudo envolverá 12 voluntários do Estado de Roraima e outros 38 de São Paulo.
A Anvisa informou que o estudo é de fase três, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. A substância será ministrada em participantes ambulatoriais do sexo masculino com covid-19 leve a moderada. Ainda não há comprovação sobre a eficácia do medicamento no tratamento para a covid e ele não deve ser usado para este fim.
O ensaio clínico é patrocinado pela empresa Suzhou Kintor Pharmaceuticals, sediada na China. Além do Brasil, os testes também serão realizados na Alemanha, Argentina, África do Sul, Ucrânia, México e Estados Unidos.
Os testes com proxalutamida fazem parte de uma estratégia chamada reposicionamento de fármacos. Isso acontece quando um medicamento que já existe é testado para outra função que não está descrita na bula. Esse método é vantajoso porque reduz o tempo e o custo de desenvolvimento de um remédio.
Adriano Andricopulo, químico medicinal e pesquisador do Instituto de Física da USP, explica que até o momento a proxalutamida não foi aprovada para tratar nenhuma doença em humanos. O remédio tem potencial antineoplásico — inibe o crescimento e a disseminação de tumores — e também está sendo investigado no tratamento do câncer de próstata. Ele ainda não está disponível em farmácias.
“Não há razão para entusiasmo em relação à proxalutamida até o momento. É mais um candidato em avaliação clínica”, diz Andricopulo. Ele lembra que ainda não há nenhum remédio contra a covid que seja eficaz e acessível. “A exceção é o remdesivir, que apresenta algumas limitações importantes, como baixa eficácia, limitada disponibilidade, elevado preço e via administração inadequada (intravenosa) para amplo tratamento”, pontua.
No Brasil, além do remdesivir, a Anvisa aprovou para o tratamento da covid os anticorpos monoclonais banlanivimabe e etesevimabe. Os remédios são indicados para pessoas acima de 12 anos e com mais de 40 quilos, com infecção comprovada em laboratório e que estejam no grupo de alto risco para a doença.
O tratamento não deve ser administrado em pacientes que já estejam com quadro grave da doença. O uso é restrito a hospitais, sob prescrição médica, e não pode ser comercializado em farmácias. De acordo com o estudo clínico apresentado à agência, o tratamento reduz em até 70% o risco relativo da covid-19.
Até o momento, há alguns estudos sobre a eficácia da proxalutamida em pacientes com covid-19. “Mas nenhum produziu evidências conclusivas que permitam vislumbrar o seu uso seguro e eficaz para o tratamento da doença, seja na redução da infecção ou no controle do processo inflamatório causado pelo SARS-CoV-2”, fala o pesquisador.
As principais iniciativas internacionais que estudam remédios para tratar a covid, Recovery (da Universidade de Oxford) e Solidarity (da Organização Mundial de Saúde), não incluíram a proxalutamida em suas linhas de pesquisa.
Marília Valli, pesquisadora de pós-doutorado no Laboratório de Química Medicinal do Instituto de Física da USP, acredita que o ideal é criar um remédio específico para a covid-19, já que o reposicionamento não vem dando resultado. “Mesmo com as vacinas, vai ser muito importante ter um medicamento para tratar a covid”, afirma.
Ela fala que o Brasil tem potencial para desenvolver um tratamento contra a doença, pois possui uma grande biodiversidade e muitos pesquisadores na área. No entanto, Marília fala que a falta de coordenação e de verba atrapalham o avanço desse tipo de pesquisa.
“O investimento em ciência caiu drasticamente nos últimos dois anos. Para desenvolvermos medicamentos e vacinas, precisamos de investimento constante”, fala.
