Era o refrão da música cantada por Márcio Greyck, sucesso na década de 80.
O estilo musical “sofrência”, o antigo “descornado” ou “dor de cotovelo”, para ficar mais chique, sempre foram destaque em nossa música.
O gênero caiu no gosto do brasileiro e não é só nas melodias, as aparências fazem sucesso também em outras áreas, o pessoal aqui aprecia o “me engana que gosto”.
Viver “nas ou de” aparências, mesmo sabendo que a realidade possa ser bem outra, é um fetiche social dos brasileiros.
Esta “fissura” de fingir verdades tem dois ramos:
A primeira:
São as aparências “do visual”, às vezes inocentes e normalmente brega.
Me refiro ao exibicionismo das vaidades exacerbadas da estética, de riquezas e status.
Uma boa maquiagem, roupas de marcas famosas conferem um visual atraente aos olhos de quem os vê. Tudo certo!
É isso que queremos, ser aceito ou impressionar sem maiores consequências, salvo alguma decepção da formosura na “hora H”.
Os fetiches das aparências físicas já estão incorporados em nossa cultura, cabelos pintados para ficar mais jovem, tatuagens para ficar igual ou diferente (ainda não sei), correntão dourado no pescoço para demonstrar poder ou prestígio na comunidade, unhas de ponta fina para ficar fashion!
Tá valendo, faz parte.
A segunda:
São as aparências “não visíveis”, mecanismo nefasto e ardiloso.
Artimanhas para tirar proveito pessoal de atos de aparência legal, vindo de quem tem o poder sobre a vida de terceiros. Vereditos aparentemente legais e de moral supostamente correta.
Na política, as aparências e a arte retórica sempre fizeram parte do embate político.
Já de tempos em que a política passou da linha do razoável do aceitável, tanto na prática retórica como no uso de aparências como se fosse a pura expressão da verdade.
Na comunicação, onde também reside o perigo das falsas aparências, principalmente quando se induz a sociedade a acreditar que aparências são a verdade dos fatos.
O poeta Mário Quintana expressava com muita propriedade o tema:
“A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.”
Bonitinho, mas perigoso no extremo!
Não é demais colocar um pezinho atrás, pois a linha que separa as aparências visíveis das invisíveis é tênue.
Quando as aparências entram no jogo do poder de um país, a verdade se torna uma variável que será verdade ou não dependendo de quem as diz!
Quanto mais poder tem uma pessoa, maior serão as consequências de suas determinações ou decisões aparentemente legais.
Os que manipulam pelas aparências da moral, sabem que estão fingindo e se expressam protegidos ou camuflados da falsa verdade com a arte da retórica a seu favor.
As aparências, também atendem pelo nome de “imagem”, que pode ser de uma pessoa ou de uma instituição pública ou privada.
A imagem é hoje mais importante do que realmente o que ela representa, ou seja, é mais importante ser bem visto, do que praticar o bem e fazer o correto.
É atribuída ao Imperador Júlio César em 62 A.C. que teria dito a sua esposa, Pompéia:
“A mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta.”
E é bem aí há um erro interpretativo da língua portuguesa. A expressão – parecer – na verdade não é o parecer de – parecido – mas sim, de demonstrar ser!
Parecer e demonstrar são palavras de significados muito diferentes, porém, quando estes dois comportamentos se topam com a verdade, nenhuma delas convivem na mesma sala, sendo a única desculpa para os fingidos é sair pela tangente exclamando:
Ahh…! Mas eu não sabia disso!
…aparências nada mais…
Dá-lhe Márcio Greyck!!
* Rogério Pons da Silva – jornalista e empresário (Contato: rponsdasilva@gmail.com)
