Cotado para assumir a candidatura do PT à Presidência, Fernando Haddad visitou na manhã dessa segunda-feira o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na sede da Polícia Federal (PF), em Curitiba (PR), pela quinta vez nos últimos 20 dias.
No encontro, ambos discutiram temas como o julgamento do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que na sexta-feira da semana passada rejeitou o registro da candidatura do líder foi petista por seis dos sete ministros da Corte.
Haddad chegou para a visita por volta das 9h30min, acompanhado de sua esposa Ana Estela, do advogado de Lula, Cristiano Zanin, e da senadora Gleisi Hoffmann, presidente nacional do partido. O ex-prefeito de São Paulo, normalmente acompanhado de outros dirigentes petistas e também de advogados de defesa de Lula, vem se encontrando com Lula na cadeia desde 15 de agosto, dia em que a candidatura de Lula foi registrada.
Na visita desta segunda-feira, Haddad também relatou ao ex-presidente a sua visita a cidades do Nordeste, na semana passada. A comitiva esteve, inclusive, no município de Garanhuns (PE), onde Lula nasceu. Lá, visitou parentes do ex-presidente e conversou com moradores antigos da cidade.
Havia nos bastidores do PT uma expectativa de que Lula pudesse desistir “oficialmente” de sua candidatura, de forma que Haddad assumisse como cabeça de chapa. Nesse caso, Manuela D’Avila seria a vice. Acabou prevalecendo, porém, a posição de uma ala do partido que defende a opção por arrastar o máximo possível o nome de Lula e só trocá-lo dentro do prazo-limite (11 de setembro, 20 dias antes da eleição).
Discordância
A decisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de esticar a corda e insistir até o limite no discurso de sua candidatura ao Palácio do Planalto desagradou aos aliados de seu vice e provável substituto, o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad (PT).
Na avaliação de dirigentes petistas ligados a Haddad, somados a governadores e deputados do partido, há risco de dispersão dos eleitores de Lula ao prolongar ainda mais o prazo para a substituição da candidatura.
Nessa segunda-feira, após horas de reunião dentro da cela onde está preso em Curitiba (PR), Lula também deu o aval para que seus advogados ingressem com novos recursos no STF (Supremo Tribunal Federal), pedindo a derrubada da decisão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que na semana passada barrou o registro da candidatura.
De acordo com aliados de Haddad, a narrativa do ex-presidente tem funcionado até agora, mas o cenário pode mudar após a resolução do TSE. O argumento é de que, com o bloqueio institucional no caminho do ex-presidente, seus eleitores entenderam, na prática, que ele não será candidato e podem começar a se desmobilizar. Isso incluiria a migração de votos para um candidato identificado com bandeiras mais à esquerda, como Ciro Gomes (PDT).
Além de Ciro e de Marina Silva (Rede), que aparecem nas pesquisas como possíveis herdeiros do “espólio” lulista, o discurso pró-segurança de Jair Bolsonaro (PSL) tem seduzido eleitores de Lula no Nordeste e preocupado a campanha do PT.
A outra ala do partido, capitaneada pela presidente nacional da sigla, senadora Gleisi Hoffmann (PR), discorda da tese de antecipar a substituição. A ideia, nesse caso, é manter até onde for possível o discurso de que Lula é candidato – no dia 11 deste mês, quando acaba o prazo dado pelo TSE para a troca na chapa.
Lula defendia que a mudança fosse feita o mais perto possível do primeiro turno mas, após a decisão do TSE de barrar sua candidatura, quis ouvir aliados que pensam o contrário. Mesmo assim, não foi convencido.
Caso ele confirme a sua desistência, a partir do dia 11 Haddad terá menos de um mês para fazer o eleitor de Lula entender que ele será o representante do ex-presidente na urna e que sua imagem estará plenamente fundida à do ex-presidente.
Aliados de Haddad (e o próprio ex-prefeito) temem que o tempo seja escasso para fazer o seu nome, ainda pouco conhecido nacionalmente, angariar o apoio que hoje está na órbita de Lula, que conta com 39% das intenções de voto, na mais recente pesquisa do Instituto Datafolha.
