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Após cancelamento de viagens, 123 Milhas entra com pedido de recuperação judicial

Empresa pede que ações de cobrança sejam suspensas de forma imediata por um período inicial de 180 dias. (Foto: Reprodução)

A 123 Milhas entrou, na tarde dessa terça-feira (29), com pedido de recuperação judicial em tutela de urgência por meio da 1ª Vara Empresarial de Belo Horizonte (MG). A solicitação é que todos os processos de cobrança movidos contra a empresa sejam suspensos de forma imediata, por um período inicial de 180 dias.

De acordo com a ação, que também inclui a holding Novum — que possui a integralidade das quotas que integram o capital social da 123milhas— e a Art Viagens, conhecida como Hotmilhas — uma das principais fornecedoras e devedora solidária —, o valor inicial da dívida informado é de mais de R$ 2,3 bilhões.

Nathalia Ribeiro, coordenadora da área Contencioso Empresarial e Arbitragem do Allaw Advogados, explica que, agora, o juiz irá analisar o pedido a fim de autorizar ou não o processamento da recuperação judicial, determinando a suspensão das ações e execuções que levem à penhora de bens. Embora esse recurso seja uma alternativa para evitar que a empresa quebre, não há nenhuma previsão de quando os compradores de pacotes poderão ter acesso novamente aos valores investidos.

Na segunda (28), a companhia fez uma demissão em massa em seu quadro de colaboradores e informou à imprensa que estava “trabalhando para, progressivamente, estabilizar sua condição financeira”.

Clientes

No pedido de recuperação judicial, a 123 Milhas disse que atende cerca de 5 milhões clientes por ano e que emprega 309 funcionários diretamente e outras centenas indiretamente. Somando os empregados da Novum e da Art Viagens, o número de colaboradores diretos sobe para 427.

Segundo o documento, as requerentes admitem que vinham enfrentando a pior crise financeira desde suas respectivas fundações, observando “aumento considerável de seus passivos nos últimos anos”.

A 123 Milhas ainda confirma que um dos problemas que culminou na insustentabilidade do negócio foi a crença errônea de que os clientes que comprassem passagens flexíveis, sem data específica, a preços mais baixos que os praticados no mercado, se fidelizariam à empresa e adquiririam serviços acessórios, tornando a venda vantajosa.

Na ação, a agência confessou acreditar “que para cada voo vendido, o cliente também adquiriria outros produtos atrelados à viagem (reservas de hospedagem, passeios etc.), mas isso acabou não ocorrendo na prática”. Também observou “que o cliente do produto Promo123 é diferente dos demais clientes da companhia, uma vez que apenas 5% dos clientes frequentes da 123milhas efetivamente compraram os produtos do Programa Promo123, percentual muito inferior ao previsto e que impediu a efetivação do cross sell esperado”.

A empresa concluiu que, em tal contexto, “se viu impossibilitada de emitir as passagens aéreas, pacotes de viagem e os seguros adquiridos pelos clientes do Programa Promo123, especialmente nos prazos contratados”, optando por tirar o Programa Promo123 do ar e entrar com pedido de Recuperação Judicial para cumprir tais obrigações de forma organizada”.

Regime de urgência

Com o pedido de recuperação judicial em regime de urgência, a 123 Milhas tem por objetivo, inclusive, suspender pedidos dos órgãos de defesa do consumidor para execução de viagens adquiridas previamente.

Para destacar a importância do deferimento do pedido pelo juiz, os advogados ressaltam que, “apenas em Belo Horizonte/MG, são ajuizadas, em média, quatro ações judiciais por hora” contra a 123 Milhas. Ainda admitem que a suspensão da emissão dos bilhetes Promo afetaram a credibilidade, o que levou a redução drástica das vendas e ao vencimento antecipado de contratos com fornecedores.

Mesmo assim, ao se apresentar como um dos dez maiores websites brasileiros de comércio eletrônico que conseguiu movimentar R$ 6,1 bilhões em 2022 e se tornou uma das maiores agências on-line de viagens (OTAs – Online Travel Agency, em inglês) do Brasil, a companhia defende ser “cristalina a viabilidade econômica” para manter a atividade empresarial e obter lucros com sua atividade.

Caso

Pouco mais de uma semana atrás, a agência on-line de turismo anunciou a suspensão de bilhetes de pacotes flexíveis da sua linha Promo, com previsão de embarque entre setembro e dezembro. A medida decepcionou inúmeros clientes, já que muitos tinham reservado e quitado hospedagens e passeios nos destinos pretendidos.

O fato levou Procons do Rio de Janeiro e de São Paulo a cobrarem explicações da companhia, assim como os Ministérios da Justiça e do Turismo.

Ao contrário do que determina o Código de Defesa do Consumidor, a 123 Milhas não ofereceu a possibilidade de os clientes escolherem como desejariam ser recompensados: através de cumprimento forçado imediato, recebimento de produto ou serviço semelhante ou devolução de dinheiro com correção monetária. A empresa simplesmente informou aos consumidores que eles iriam receber um voucher para uso na própria plataforma em até 36 meses.

De acordo com a advogada Luciana Atheniense, algumas das pessoas representadas por ela receberam “vouchers picados”. Em um dos casos, uma compra de uma viagem de R$ 2 mil foi devolvida em quatro vales de R$ 500, que não poderiam ser usados juntos. A medida, segundo ela, desrespeita toda a legislação de direitos dos consumidores.

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