Mesmo com a decisão de parlamentares de esperar os atos do dia 15 de março para dar resposta dura à declaração de Jair Bolsonaro de sábado (7) de incentivo aos protestos, que têm na pauta críticas ao Congresso e o STF (Supremo Tribunal Federal), a fala foi um divisor de águas nas relações com o Legislativo.
Por ter ocorrido uma semana após líderes partidários terem atuado para pacificar a relação entre os Poderes, o discurso de Bolsonaro minou ainda mais a confiança da cúpula no Congresso nele.
Sem acreditar em entendimentos, parlamentares preparam reação ao Executivo em pautas do Senado e da Câmara após o dia 15. O nível da resposta dependerá da adesão da população aos atos e da força política que Bolsonaro demonstrará.
Indignação
A declaração do presidente Jair Bolsonaro a favor dos protestos do dia 15 desagradou os presidentes da Câmara, do Senado e do STF (Supremo Tribunal Federal).
Nos bastidores, Rodrigo Maia (DEM-RJ), Davi Alcolumbre (DEM-AP) e o ministro Dias Toffoli manifestaram a aliados descontentamento e indignação com o gesto de Bolsonaro.
O presidente pediu, em discurso em Boa Vista (RR), que a população participe dos atos e afirmou quem tem medo de rua não serve para ser político.
As manifestações são organizadas por ativistas conservadores e têm bandeiras como a defesa do governo e das Forças Armadas, além de fortes críticas ao Congresso. Nas redes, há algumas convocações de caráter autoritário, pedindo o fim do Legislativo e do STF.
Ao tomar conhecimento da fala de Bolsonaro, Alcolumbre conversou com Toffoli. Combinaram que, se houver uma manifestação, será conjunta, do Legislativo e do Judiciário, e mais dura que as anteriores.
Alcolumbre demonstrou a interlocutores irritação e preocupação e considerou o episódio deste sábado uma “situação grave”.
Na avaliação dos chefes do Congresso e do Supremo, o recado passado pelo Palácio do Planalto nos últimos dias foi de que Bolsonaro não se manifestaria após a polêmica do vídeo que compartilhou via WhatsApp convocando para os atos.
O assunto foi discutido pessoalmente entre Bolsonaro e Alcolumbre na última segunda-feira (2).
O senador reclamou com Bolsonaro, que, por sua vez, teria dito que não teve a intenção de colocar as ruas contra o Congresso. Outros parlamentares ouviram do presidente que o episódio era um “mal-entendido”.
Mensagem parecida foi passada pelo ministro Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) a Toffoli e Maia.
Por isso, as frases de Bolsonaro no fim de semana irritaram os comandos do Legislativo e do Judiciário.
Eles discutem a possibilidade de uma resposta conjunta ao Planalto. Avaliam, porém, que não se pode cair na “pilha” do presidente e responder à atitude do mandatário incisivamente.
Iniciar um bate-boca com o presidente agora em virtude da convocação, avalia a cúpula do Congresso, poderia apenas instigar mais ainda a população contra o próprio Congresso e aumentar a mobilização.
As convocações ganharam força após fala do general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Nacional (GSI), que chamou o Parlamento de chantagista.
O ministro falava da disputa entre Executivo e Legislativo por verbas do Orçamento de 2020, o que gerou embates entre os Poderes.
A polêmica do protesto ampliou a crise, mas, na semana passada, Congresso e governo fecharam um acordo para dividir recursos.
Um vídeo do discurso em Roraima foi compartilhado pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o que também não foi bem recebido pelos demais Poderes.
Bolsonaro se manifestou durante uma escala em Boa Vista para sua viagem aos Estados Unidos. Segundo ele, o protesto do dia 15 “é um movimento espontâneo e o político que tem medo de movimento de rua não serve para ser político”. “Então participem, não é um movimento contra o Congresso, contra o Judiciário. É um movimento pró-Brasil”, disse.
“Quem diz que é um movimento impopular contra a democracia está mentindo e tem medo de encarar o povo brasileiro”, disse.
