A alta do PIB (Produto Interno Bruto) no primeiro trimestre do ano, de 1,2% na comparação com o registrado no quarto trimestre de 2020, projetada pelo IBGE, foi superior às projeções do mercado e fez com que os analistas revisassem para cima as suas projeções de crescimento da economia para este ano.
O otimismo com a retomada, contudo, ainda é modulado devido a incertezas como os efeitos da terceira onda da pandemia, o ritmo lento de vacinação contra o coronavírus e a crise energética vivenciada pelo país.
Entre os mais otimistas, está o banco Goldman Sachs, que revisou sua previsão de crescimento para o PIB do país neste ano de 4,6% para 5,5%.
Em seu relatório, a instituição financeira diz que a estimativa considera que não haverá cortes no fornecimento de energia e que espera melhora nas atuais limitações na cadeia de suprimentos (e consequentemente na escassez de matérias-primas) e maior controle da pandemia a partir do segundo semestre.
O economista Alberto Ramos, que assina o relatório, destaca que, mesmo que atividade econômica se mantenha no atual patamar até o fim do ano, o país crescerá 4,94% em 2021 só por efeito estatístico, o que os economistas chamam de carry-over.
Alessandra Ribeiro, sócia-diretora da área de macroeconomia da Tendências, vê com menos otimismo o cenário para este ano. A consultoria deve revisar sua estimativa de crescimento do PIB para este ano de 4% para 4,2%.
“Temos riscos importantes, como a terceira onda da pandemia, e a incerteza do ritmo de vacinação mais lento. Nosso cenário-base previa em julho ou agosto com 40% da população adulta vacinada, mas maio fechou bem abaixo da expectativa”, afirma Riberiro.
Ela acrescenta: “A maior surpresa no PIB do primeiro trimestre foi a formação bruta de capital fixo (indicador de investimentos), que veio acima do que esperávamos, com 4,6%. Teve um efeito de plataformas de petróleo nestes primeiros meses do ano, mas a performance veio impulsionada por bens de capital, ligados à agropecuária e a transportes, além de construção civil.”
Para a economista a reabertura da economia depende de se chegar ao fim do ano com 70% da população adulta vacinada. Para ela, a crise hídrica deve afetar o custo da energia, mas sem o risco de uma crise similar à de 2001, com racionamento:
“Mas teremos uma energia mais cara e riscos de blackouts mais localizados, que limitam crescimento econômico.”
Rodolfo Margato, economista da XP, ressalta que a reposição de estoques na indústria foi um componente importante para o desempenho positivo da atividade econômica neste início de ano.
Ele lembra que o setor industrial encerrou o ano com estoques muito baixos, em razão da demanda elevada por bens industriais além do que era esperado pelas cadeias industriais.
“Pelo lado da demanda, o PIB não teria crescido tanto e poderia ter tido até resultado negativo não fosse essa variação bastante positiva dos estoques. Por outro lado, vale a pena dizer que nos trimestres de 2020 a gente viu o contrário: um consumo de estoques bem rápido que levou a essa necessidade de recomposição.”
Ele pontua, porém, que essa recomposição de estoques não deve se sustentar nos próximos meses. Por outro lado, ele observa melhor adaptação de empresas e famílias ao cenário de pandemia.
Por conta disso, a XP está revisando sua projeção de 4,1% para o PIB para algo entre 4,5% e 5%, diz Maragato:
“Sabemos que infelizmente a segunda onda se mostrou mais severa, mas o choque oriundo dessa vez foi menor. O cenário nublado para o PIB há alguns meses, por conta do impacto da pandemia na atividade, está ficando mais claro e o crescimento mais forte”, diz ele.
O Banco Inter revisou a expectativa de PIB de 4,2% para 4,8% para 2021. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) também ampliou sua projeção de alta do PIB (de 3,2% para 3,8%), mas vê com preocupação uma possível retração do consumo das famílias nos próximos trimestres.
“O impacto da segunda onda da pandemia sobre o nível de atividade foi menos acentuado que o da primeira, mas neste trimestre o consumo das famílias já caiu um pouco, 0,1%. Isso mostra que há sim um resultado negativo da pandemia sobre a atividade econômica”, diz Fabio Bentes, economista da entidade, para quem a agropecuária salvou o resultado da economia.
Já Luka Barbosa, economista do Itaú Unibanco, afirma que o PIB do primeiro trimestre veio acima do que o banco esperava, que era uma alta de 0,6%. Apesar disso, a instituição também não deve alterar, a princípio, a estimativa do PIB para o ano, de crescimento de 5%.
“Achamos que a agropecuária pode cair no segundo trimestre, para quando esperamos um PIB com alta mais fraca, de 0,2%. Para os dois últimos trimestres, nossa expectativa é de altas de 1% em média”, explica Barbosa. As informações são do jornal O Globo.
