A poucos meses da eleição presidencial na Argentina, o governo do presidente Alberto Fernández enfrenta uma escassez dramática de dólares, intensificada pela falta de investimentos estrangeiros e uma seca histórica que afeta a safra de grãos – seu principal produto de exportação. Segundo analistas, não é uma questão de se, mas quando, o país ficará sem dólares.
Com reservas internacionais líquidas de menos de US$ 3 bilhões, o governo Fernández se encontra em uma condição mais frágil do que a de seu antecessor, Mauricio Macri, em seu último ano de governo, para defender o peso e impedir uma escalada do dólar e, consequentemente, da inflação, que já ronda os 100% em 12 meses.
Só que a perspectiva de eleições gerais em outubro, combinado com a situação de crise no campo e à perda crescente da confiança dos investidores na gestão econômica do “superministro” de Economia Sergio Massa, também não deixam margem para que o governo mude a situação no curto prazo sem recorrer a medidas impopulares.
O Banco Central da República Argentina (BCRA) não divulga os dados oficiais das reservas líquidas desde o fechamento de 2022, mas segundo estimativas de analistas consultados pelo Valor, estas reservas líquidas estavam em fevereiro em US$ 2,66 bilhões. Já as reservas internacionais brutas, que incluem títulos de dívida e outros ativos – como os créditos do Fundo Monetário Internacional (FMI), ouro e swap de moeda chinesa – estavam em US$ 37,6 bilhões.
Desde o início do mês o BCRA intensificou as intervenções diárias no mercado de câmbio para evitar a disparada do dólar no câmbio paralelo (blue) têm drenado as reservas internacionais em dólar, explicam os especialistas. Só na quarta-feira, o banco central vendeu US$ 95 milhões para conter a desvalorização do peso no mercado real. A moeda americana fechou a 393 pesos, 4 pesos a menos do que na véspera. O dólar oficial fechou a 215 pesos. A diferença causa a escassez de dólares no mercado.
O banco central teve de vender US$ 1,1 bilhão em fevereiro, pior resultado mensal em mais de duas décadas. Estima-se que os dispêndios de dólares em março se mantenham em um patamar parecido, indicando um ritmo de gastos que projeta a exaustão da capacidade do governo de defender sua moeda em pouco tempo.
“Em meados de 2019, durante o governo Macri, as reservas líquidas do BCRA eram de cerca de US$ 20 bilhões, mas começaram a cair depois que as Paso (Primárias abertas, simultâneas e obrigatórias, que funcionam como uma grande e precisa pesquisa sobre a intenção do eleitor) indicaram a vitória da coalizão de Fernández e da vice Cristina Kirchner”, disse o analista da consultoria J. Ferrerés & Asociados, Nicolás Alonzo. O ano de 2020 começou com um saldo de cerca de US$ 12 bilhões.
“O saldo líquido de agora, de pouco mais de US$ 2,6 bilhões, equivale a um terço do que o país importa por mês”, prosseguiu Alonzo. “Não se sabe quando as reservas se esgotarão totalmente, se amanhã ou daqui a alguns meses.”
“A única solução para atenuar esse problema seria uma desvalorização do câmbio oficial”, afirmou o economista Luis Secco. “Mas essa seria uma medida muito impopular para um ano eleitoral, ao mesmo tempo em que a inflação anual de mais de 100% já desgasta o governo”, disse Secco.
Os argentinos que mantêm poupança em dólares não confiam nas políticas do governo. De acordo com os últimos dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), os poupadores e investidores locais tinham, em 31 de dezembro do ano passado, US$ 261,795 milhões fora do país.
Outro analista, que pediu para não ter o nome divulgado, disse que o BCRA pode usar os SDRs – sigla em inglês para ativos de direito especial de saque para recompor a reserva líquida, caso ela chegue ao fim. Esses créditos, criados pelo FMI nos anos 60, compõem as reservas brutas do país e podem ser convertidos em dólar.
Em 2015, durante o governo de Cristina Kirchner, o BCRA lançou mão de SDRs depois de as reservas terem operado com saldo negativo de quase US$ 1,5 bilhão.
O FMI, que há um ano fechou um acordo com a Argentina de US$ 44,5 bilhões, tem expressado preocupação com as medidas adotadas pelo país para manter suas reservas em dólares. Na semana passada, quando o governo de Fernández ordenou ao setor público que trocasse seus títulos de dívidas em moeda americana por outros denominados em pesos, o FMI recomendou ao país a adoção de “políticas macroeconômicas consistentes para conter pressões cambiais e a inflação”.
Na quarta-feira, o ministro Massa – junto com Fernández – fez uma visita a Washington, onde conversou com a vice-diretora geral do Fundo, Gita Gopinath. Ele levou à direção do FMI demandas por flexibilização da política de reservas em razão do impacto causado pela seca. As informações são do jornal Valor Econômico e de agências internacionais de notícias.
