A ação da CCR, maior grupo de infraestrutura logística do País, foi duramente castigada pelos investidores no pregão de quinta-feira (07), um dia após a companhia fechar um acordo de leniência de R$ 750 milhões com a força-tarefa da Operação Lava-Jato no MPF (Ministério Público Federal), em Curitiba, com os investidores demonstrando surpresa com o montante a ser pago pela companhia e preocupação com possíveis desdobramento do caso.
Os papéis da companhia fecharam o dia com queda de 6%, cotados a R$ 12,70, o maior recuo entre as ações listadas no índice Ibovespa e a menor cotação desde 9 de janeiro. Com o desempenho de quinta-feira, as ações ordinárias da CCR acumulam queda de 10,75% no mês.
O acordo fechado na quarta-feira (06) trata de atos de corrupção e lavagem de dinheiro em contratos firmado pela Rodonorte (Concessionária de Rodovias Integradas), empresa do grupo CCR, com o governo do Estado do Paraná, o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR), o DNER (Departamento Nacional de Estradas e Rodagem) e o Ministério dos Transportes. A empresa reconheceu o pagamento de propinas em troca da obtenção de modificações contratuais, que a beneficiaram desde o ano de 2000.
Junto com pagamento de uma multa de R$ 35 milhões em dinheiro, a empresa terá de compensar os usuários da rodovia com o desconto da ordem de 30% nos pedágios. Esse desconto será feito até alcançar o valor de R$ 350 milhões. Ela se comprometeu ainda a realizar obras adicionais no trajeto da rodovia, que não estavam previstas no contrato original, em um total de R$ 365 milhões e ser submetida a um processo de monitoria externa de “compliance”.
Analistas de bancos de investimento demonstraram surpresa com o montante a ser pago pela CCR. Em comentário enviado a clientes, Vitor Mizusaki, do Bradesco BBI, estimava um montante de R$ 150 milhões em indenização. As analistas Renata Faber, Thais Cascello e Julia Hupperich, do Itaú BBA, tiveram a mesma leitura. “Apesar do mercado estar esperando o acordo, acreditamos que o montante excedeu as expectativas”, diz trecho do relatório das analistas. Elas mantiveram a recomendação neutra para as ações da CCR, com preço-alvo de R$ 12 por ação.
Os investidores adotaram uma postura cautelosa por conta de possíveis desdobramentos do caso para outras empresas do setor de concessões. Um gestor, que não quis se identificar, disse que a falta de clareza a respeito de eventuais impactos futuros e de possíveis montantes a serem pagos em acordos de leniência prejudicou os papéis do setor como um todo. Foi o caso da Ecorodovias, cujas ações acompanharam o forte recuo da CCR e terminaram o dia com queda de 5,58%, a R$ 9,98.
A dúvida a respeito de futuros acordos de leniência no setor, principalmente envolvendo a CCR, cresceu após o Valor apurar que a empresa pode fechar ainda neste ano um novo acordo com o Ministério Público do Estado de São Paulo envolvendo o pagamento de multas que podem superar os R$ 750 milhões do acordo fechado pela Rodonorte.
Este seria o segundo acerto firmado entre as empresas e as autoridades paulistas em menos de um ano. Um novo acordo não anularia os efeitos do que foi firmado no ano passado. Durante as negociações para a assinatura da autocomposição, em novembro, ficou acertado entre a CCR e o MP-SP que o eventual pagamento de propina entraria em um novo termo a ser discutido em 2019. Em fato relevante divulgado, a CCR informou não possuir conhecimento acerca de novas investigações conduzidas pelo MP-SP envolvendo ela ou suas controladas.
Enquanto novos desdobramentos não são anunciados, os analistas que acompanham a CCR avaliam que a empresa está bem posicionada financeiramente para fechar acordos com a Justiça, não devendo ter suas atividades prejudicadas. No acumulado de 2019, os papéis da CCR acumulam valorização de 13,39%. “Nós mantemos nossa recomendação de compra para a [ação da] CCR, com preço-alvo de R$ 15,00, dado que a companhia possui R$ 10 bilhões em recursos para investir em novas concessões ao longo dos próximos anos”, diz trecho do comentário do analista do Bradesco BBI.
