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As denúncias de abuso sexual contra o médium João de Deus chocaram moradores no interior de Goiás

Portão da Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (GO). (Foto: Divulgação)

Silêncio. A palavra, repetida como orientação de conduta em quadros e cartazes por todos os lados da Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (GO), retrata parte do cenário na cidade de pouco mais de 15 mil habitantes desde que vieram à tona denúncias de abuso sexual envolvendo um dos médiuns mais famosos do país. As informações são do jornal Folha de S.Paulo.

Nas ruas, poucos moradores do município cuja economia gira em torno das atividades de João de Deus, nome pelo qual é conhecido o médium João Teixeira de Faria, 76, aceitam falar abertamente sobre o tema. Atribuem a decisão ao temor de represálias e ao silêncio também de João, que fundou em 1976 a casa que funciona como hospital espiritual no município.

No sábado (8), 13 mulheres disseram ao programa Conversa com Bial, da Rede Globo, e ao jornal O Globo que o médium abusou sexualmente delas em um escritório em uma parte separada do local.

O Ministério Público de Goiás informou que ele já era investigado desde junho por acusações de abuso e que os novos casos relatados à imprensa serão apurados.

Ao Fantástico uma promotora de Justiça de São Paulo disse ter recebido cerca de 200 relatos do tipo desde que as denúncias vieram à tona.

As denúncias abalaram a rotina em Abadiânia.

Por um lado, a Casa Dom Inácio, que recebe mais de mil pessoas por dia, tentava manter as atividades programadas para o fim de semana. João de Deus atende às quartas, quintas e sextas-feiras.

Entre turistas e moradores, porém, o clima era de incerteza. Brasileiros e estrangeiros se dividiam entre a defesa do médium e preocupação.

“Até então, tudo tem corrido bem. Mas, quando vimos as notícias na TV, ficamos pensando: e se for verdade? E se ele for um charlatão?”, afirma Demir Ali Selen, 28, que veio da Turquia junto com os tios em busca de tratamento para o primo, de três anos, diagnosticado com câncer no cérebro. “É difícil ouvir sobre isso sabendo que levamos mais de 24 horas só para chegar até aqui. Essa é como se fosse a nossa última chance”, relata.

Apesar da incerteza, a mãe do menino, a dona de casa Sibel Ozture, 42, diz que não planeja desistir por enquanto da terapia espiritual recomendada ao garoto para ser administrada junto com o tratamento médico.

Desde julho, quando a família fez a primeira visita, ele já passou por uma cirurgia invisível feita com orações, e toma comprimidos de passiflora adquiridos na farmácia do local. É de lá e de uma livraria (que vende terços de R$ 10 a R$ 30 e pedras “energizadas” de até R$ 1.000) que vem parte da renda da instituição.

“O que vimos aqui é muito diferente do que ouvimos nos últimos dias”, diz Sibel. “Também notamos que, todas as vezes em que passamos por ele [João de Deus], ele nunca faz contato com o olhar.”

Mulheres que fizeram as denúncias dizem que os abusos ocorreram após o médium chamá-las para conversas individuais em um espaço separado do restante da casa após o encerramento das sessões – sempre quando estavam desacompanhadas.

Para a guia Andrea Tagliarini, 55, que coordena viagens da Argentina a Abadiânia há sete anos, a situação é uma espécie de provação. “Visitantes me mandaram mensagens preocupados”, diz Andrea, que mudou há um ano para a cidade para trabalhar como guia e tradutora. “Encaro isso como uma provação não para o João, mas para vermos se nossa fé é verdadeira ou não. Meu afeto por ele está mais firme que antes.”

Outro lado

Em nota enviada ao programa Conversa com Bial, da TV Globo, que relevou o caso, a assessoria de imprensa do médium afirmou o seguinte: “Há 44 anos, João de Deus atende milhares de pessoas em Abadiânia, praticando o bem por meio de tratamentos espirituais. Apesar de não ter sido informado dos detalhes da reportagem, ele rechaça veementemente qualquer prática imprópria em seus atendimentos”.

Ao jornal O Globo, a assessoria disse que as acusações são “falsas e fantasiosas” e questiona o motivo pelo qual as vítimas não procuraram as autoridades. Ainda afirma que a situação é “lamentável, uma vez que o Médium João é uma pessoa de índole ilibada”.

Ao Fantástico, o advogado de João de Deus, Alberto Toron, disse que o médium nega as acusações, recebidas com indignação. Toron diz ainda que João está à disposição da Justiça para ser ouvido a qualquer momento.

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