“As enchentes no Rio Grande do Sul são a prova material de que riscos baixos são reais”,, sentencia Rafael Tucci, CEO da Rhama Analysis, consultoria de engenharia e meio ambiente. A Rhama é a responsável pelas previsões sobre o nível de água do Guaíba que o país todo passou a acompanhar diária e atentamente desde que as fortes chuvas deixaram quase 80% das cidades do Estado alagadas, nas últimas três semanas.
No cômputo de uma tragédia que deixou mais de 150 mortos e meio milhão de pessoas desalojadas está 90% do PIB industrial do Estado cujas instalações também foram alagadas. Um prejuízo estimado em R$ 100 bilhões pela Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul, e cuja materialidade não havia sido contabilizada como risco ao negócio nos relatórios das companhias.
“Quais empresários estão dispostos a reconhecer o risco climático e adotar medidas preventivas?”, pergunta Tucci. “Você não entraria em um avião se houvesse uma probabilidade de queda de 2% na indústria aeronáutica. Mesmo que a probabilidade de um evento climático seja baixa, ela pode se materializar. E a consequência pode ser a extinção de muitos negócios. Precisamos assumir que os riscos são reais e trabalhar na prevenção.”
São raras as empresas que contratam serviços como os da Rhama para tentar calcular o risco que eventos climáticos podem provocar ao negócio, medida que passará a ser obrigatória para empresas listadas na B3 a partir de 2027, conforme nova regra da CVM. “Esse tipo de análise de risco precisa ser adotada pelas grandes empresas e também incluída nos contratos de M&A (fusão e aquisição). Se acontecer o mesmo que no RS, a empresa precisa estar preparada para lidar com o prejuízo.”
Desde o início da tragédia, o time da Rhama Analysis vem trabalhando com o poder público e universidades de forma voluntária, mas na última semana começaram a chegar demandas de empresas gaúchas interessadas em adquirir relatórios que possam ajudar a identificar possíveis responsáveis pelas cheias e também para apoiar planos de reconstrução. “O resto do Brasil não se deu conta ainda da dimensão do que aconteceu no Rio Grande do Sul”, diz Tucci.
A Rhama foi fundada em 2000 por Carlos Tucci, 76, um dos maiores especialistas em recursos hídricos do mundo. Professor emérito da UFRGS, foi premiado pela Unesco e é um dos cientistas mais citados em publicações internacionais sobre gestão de inundação e drenagem urbana.
Para elaborar estudos e calcular riscos hidrogeológicos, a Rhama conta ainda com especialistas em meteorologia (área chefiada por Maria Assunção Dias, pós doutora pela N.A.S.A.), e em geotecnia ou movimentação de solo, sob a liderança do engenheiro PhD Fernando Schnaid.
Rafael, que é economista com passagem pelo grupo Votorantim, assumiu a frente da consultoria do pai em 2015 com a intenção de profissionalizar o negócio e ampliar o seu alcance. Hoje os clientes vão desde o Banco Mundial, a usina de Itaipu e a Aegea Saneamento, que adquiriu no ano passado a estatal de saneamento gaúcha, a grandes mineradoras e empresas de construção civil.
Recentemente, a Rhama lançou um braço de tecnologia, a Vexus, conta com cientistas de dados para transformar o conhecimento da Rhama em produtos de prateleira, apoiando empresas na previsão e prevenção de riscos hidrogeológicos.
As estimativas e previsões da Rhama podem ser consideradas o estado da arte no Brasil, mas elas esbarram na precariedade dos dados de medição de nível de água nos rios do país. Segundo Tucci, a Agência Nacional de Águas monitora 20 mil estações para fazer a medição de níveis de rios em todo o Brasil. Para efeito de comparação, o Reino Unido, que tem uma área equivalente a Pernambuco, tem 7 mil estações.
Desde que Rafael assumiu a gestão, as receitas da Rhama saíram de R$ 1 milhão para R$ 14 milhões. E a previsão é fechar o ano de 2024 com R$ 25 milhões, número que inclui as receitas da Vexus. Para acelerar o crescimento da Vexus, Tucci avalia buscar um investidor estratégico ou smart money. As informações são do jornal O Globo.
