Rani Jordão Ganime, 10 anos, acorda antes do amanhecer. Toma o café da manhã, às vezes mesmo sem fome, e parte de carro com o pai, na Ilha do Governador, para a sede do Flamengo, na Gávea, Rio de Janeiro, onde integra a equipe de natação do clube. De segunda a sábado, inclusive feriados, salta às 7h na piscina a céu aberto para um treino de uma hora e meia – mesmo quando a temperatura cai no inverno e a água não está nada quentinha.
A disposição para a rotina puxada vem do sonho de um dia participar de uma Olimpíada e de que o esporte lhe proporcione a oportunidade de estudar em uma universidade americana.
“Meus pais falam muito comigo. Dizem que, se eu me esforçar muito, vou conseguir uma bolsa de estudos lá nos Estados Unidos. É um sonho deles e meu”, diz a atleta mirim, que trocou o jiu-jitsu pela natação porque o primeiro não lhe garantiria chances de estudar fora por ainda não ser uma modalidade olímpica e disputada na liga universitária americana.
Assim como Rani, muitas crianças estão se dedicando ao esporte desde cedo com o objetivo de cursar o ensino superior fora do Brasil.
Escolinhas de futebol, tênis ou natação que antes recebiam apenas meninos e meninas interessados em aprender os fundamentos da modalidade e se divertir, agora são procuradas por famílias que planejam investir no esporte como uma forma de seus filhos estudarem no exterior no futuro.
Humberto Badolato, empresário e professor da escolinha de futebol da academia Bodytech, no Rio de Janeiro, conta que muitos pais o procuram para saber qual o melhor caminho para estudar lá fora por meio do futebol.
“Alguns me pedem treino personal com o objetivo de já ir aperfeiçoando a técnica das crianças. Eles sabem que meu próprio filho está se preparando para entrar em uma universidade americana. Só que ele quer a Ivy League (grupo formado por oito das universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos e que não concede bolsas para atletas)”, conta.
Para Rita Moriconi, coordenadora do Education USA no Cone Sul, os pais estão certos em despertar esse interesse na infância.
“O esporte sempre ajuda no processo de admissão. Tanto para o aluno atleta, que vai aplicar para uma bolsa atlética, como também para aquele aluno que não compete, mas que se sentiria bem indo para uma universidade em que ele tenha possibilidade de jogar ou nadar, por exemplo”, afirma a educadora.
Filiado ao Departamento de Estado dos EUA, o Education USA tem 35 escritórios no Brasil e auxilia gratuitamente os candidatos na escolha entre as 4,7 mil universidades americanas, além de prestar assistência no processo de seleção.
Uma das dicas de Moriconi é começar a fazer um portfólio atlético desde o início com fotos e vídeos. “Eles também devem procurar o Education USA quando chegar ao nono ano do ensino fundamental, uns três ou quatro anos antes de fazer o application (se inscrever)”, recomenda.
Na última década, o número de brasileiros inscritos em universidades dos Estados Unidos aumentou 79,3%, segundo dados do Instituto de Educação Internacional (IIE, na sigla em inglês). O Brasil escalou seis posições e ocupa o décimo lugar no ranking dos países com o maior número de alunos estrangeiros cursando ensino superior no país.
Em 2017, eram 6.310 alunos brasileiros de graduação concentrados nos Estados da Califórnia, Florida, Nova York, Massachusetts e Texas. Desse total, 584, ou 8,35%, tinham bolsa-atleta nas Divisões 1 e 2 da National Collegiate Athletic Association (NCAA, na sigla em inglês), a associação da liga universitária americana. Anualmente, são concedidos US$ 3 bilhões em bolsas-atléticas. As bolsas por mérito acadêmico somam US$ 11 bilhões.
A ajuda geralmente inclui a mensalidade da faculdade, moradia, alimentação, material e seguro saúde. O valor a ser recebido varia e depende da performance do atleta, do quanto necessitam sua posição na equipe e da modalidade.
