Há alguns anos, um amigo de longa data foi convidado para um evento em Cuba e voltou com uma experiência dramática e comovente.
Por alguns dias, vivenciou a realidade dos cubanos, que, para nós, brasileiros, ao menos por enquanto, são situações inimagináveis.
No desembarque no aeroporto de Havana, Eduardo foi recebido por um funcionário do governo que, de imediato, apresentou-lhe suas credenciais, comunicando que, durante toda a sua estada no país, ele iria, digamos, “fazer-lhe companhia”.
A princípio, estranhou, mas depois, conformado com as regras do país, foram direto ao hotel.
Antes de se despedir, José (nome do agente cubano), alertou seu “tutelado” que não deveria sair sozinho do hotel, nem mesmo para o congresso, motivo da sua viagem, bem como para nenhum outro lugar sem a companhia do agente público, ele próprio, no caso.
Assim, durante toda a estada em Cuba, Eduardo teve a companhia do jovem José, um rapaz bem-educado e gentil.
Em várias oportunidades, ambos almoçaram e jantaram juntos. José gostava de uma boa conversa e o brasileiro, de boa fluência em espanhol. Nasceu ali uma bonita amizade.
Um dia antes da partida, Eduardo, como bom brasileiro, queria retribuir ao agente cubano, como forma de agradecimento, uma lembrança pelo tratamento educado e atencioso recebido.
Eduardo ofereceu-lhe algumas camisas polo (de marca famosa), uma vez que o jovem rapaz sempre admirava e elogiava suas camisas.
Por um breve momento, o jovem titubeou em aceitar, mas, em seguida, recusou, dizendo:
Agradeço muito, mas não posso aceitar.
“Me gustaría”, são lindas!! As queria muito, mas, se alguém do Partido me vir com esse tipo de camisa, posso ser denunciado no trabalho e perder meu emprego.
Apesar de frustrado, Eduardo entendeu a situação e se despediram.
No dia seguinte, foram direto para o aeroporto. Como de costume, Eduardo aguardou a chegada de José ao hotel.
No aeroporto, José, nitidamente envergonhado, indagou a Eduardo de forma direta:
O senhor quer mesmo me dar um “regalo”?
Claro!! O que queres, José? Será um prazer! Afinal, você foi muito gentil comigo em todos estes dias! Gostaria, sim, de lhe dar uma recordação — respondeu Eduardo, bem contente.
José olhou para um lado, depois para o outro, respirou fundo e falou em tom discreto:
Em alguns dias, minha esposa estará de cumpleaños (aniversário). O doutor poderia comprar para mim dois sabonetes e um frasco de xampu?
Eduardo ouviu aquilo com um nó na garganta, em silêncio, em respeito à realidade vivida por aquele homem gentil e trabalhador, que só queria agradar sua esposa com algo de melhor qualidade.
Refeito do choque, Eduardo se dirigiu a uma loja somente para estrangeiros, comprou os produtos e entregou-lhe os presentes.
O clima de despedida entre aqueles dois homens, de vidas tão distintas, foi marcado pela emoção de Eduardo por proporcionar felicidade com tão pouco e de José por considerar os sabonetes e o xampu um luxo, quase um sonho de consumo.
Realmente, o socialismo tem muitas lições para dar ao mundo; este é só um exemplo do socialismo na prática.
No sistema de caderneta do regime cubano, as marcas de sabonetes são exclusivamente de fabricação no país, produzidas pela estatal Suchel.
Os sabonetes da marca LIS são racionados, sendo permitido comprar apenas um sabonete por pessoa a cada mês. Isso mesmo: um sabonete por mês, para cada pessoa.
No Brasil, muitos brasileiros não têm condições de comprar sabonetes de qualidade. Contudo, somos capazes, com trabalho e esforço pessoal, de conquistar a liberdade de escolher.
José, em Cuba, não!
Alguma vez já fez a conta de quantos sabonetes você utiliza por mês?
No socialismo, tem que fazer.
O socialismo é um paraíso em teorias e o próprio inferno na prática.
* Rogério Pons da Silva
