Ícone do site Jornal O Sul

As mudanças previstas na reforma da Previdência devem atingir mais de 100 milhões de brasileiros

Foram levantados mais de 200 indicadores de 211 países, extraídos de bancos de dados oficiais. (Foto: Agência Brasil)

Dos trabalhadores da cidade aos da zona rural, passando por servidores públicos e empregados do setor privado, a reforma da Previdência proposta pelo governo de Jair Bolsonaro deve atingir mais de 100 milhões de brasileiros. Essa projeção inclui os cidadãos já na ativa e os que ainda ingressarão no mercado.

Se o projeto for aprovado pelo Congresso Nacional, as regras para se aposentar serão mais duras para todos. Porém, quem ganha mais vai contribuir mais. O critério da idade mínima promete corrigir a desigualdade do atual sistema, em que os mais ricos se aposentam mais cedo.

As medidas cobram um preço de cada um em nome do interesse de todos. O déficit da Previdência consome cerca de 60% das despesas do governo, cujo rombo fiscal projetado para este ano é de R$ 139 bilhões. Sem mudar isso, os economistas dizem ser impossível garantir o pagamento das aposentadorias e abrir espaço para mais investimentos públicos em serviços essenciais, como saúde e educação.

Exemplos

Desempregada há dois anos, Leilane Azevedo, de 21, vive na Zona Norte do Rio de Janeiro com uma irmã e dois filhos. Ela vê como positiva a proposta de redução da contribuição previdenciária de 8% para 7,5% para quem ganha salário mínimo, mas pondera: isso só faria alguma diferença para ela se tivesse um emprego para ganhar ao menos o piso nacional de R$ 998, como quando trabalhou numa padaria.

Hoje, só conta com a pensão de R$ 300 do ex-marido e R$ 229 do Bolsa Família. Nas contas do governo, porém, a aprovação da reforma deve impulsionar a economia e criar 8 milhões de vagas até 2023. Leilane espera reconquistar em breve o direito de contribuir para ter uma aposentadoria no futuro.

Enquanto os trabalhadores da iniciativa privada têm seu benefício limitado ao teto do INSS (R$ 5.839), os servidores que ingressaram até 2003 têm direito à integralidade. Servidora pública desde 1999, a tecnologista Luciana Lopes, 42 anos, ganha R$ 9,5 mil. Na regra atual, ela poderia se aposentar aos 55 anos e com benefício integral. Se a reforma for aprovada, terá que esperar até os 62 para receber na aposentadoria o equivalente ao seu salário atual.

O governo também prevê criar um novo regime para os trabalhadores que ainda não começaram a contribuir para o INSS: o sistema de capitalização, na qual o jovem poupa hoje para pagar sua própria aposentadoria no futuro. O universitário Matheus Bernini, 22 anos, realizou o sonho de cursar Astronomia. Com a reforma da Previdência, só poderá se aposentar após 40 anos de contribuição. Mas ele tem dúvidas: “Preciso saber que tipo de retorno terei no futuro”.

Nathalia Machado, 30 anos, funcionária de uma empresa privada, tem a carteira assinada há dez anos e trabalha em São Paulo, na área de marketing. Casada mas sem filhos, ela conta com uma renda de cerca de dez salários mínimos e investe em uma previdência privada desde o início da sua vida profissional. “Acho que a reforma da Previdência é necessária, porque da forma como está hoje não pode continuar”, concorda.

“Não acho injusto aumentar a idade para homens e mulheres, porque, mesmo que as mulheres se sobrecarreguem com a rotina doméstica, os homens muitas vezes têm de trabalhar mais para manter a renda em casa. Hoje não conto com a Previdência Social para a minha aposentadoria. Acho que ela deve ser voltada para quem não tem condições de ter uma previdência privada”.

O autônomo Silvio Teixeira, 48 anos, trabalha desde os 16 anos. Ele, que já foi ajudante de obras e camelô de trem, hoje ganha a vida vendendo aipim. Só contribuiu para o INSS por um curto período de cinco anos. Por isso, nem conta com a Previdência. Para se aposentar, planeja construir quitinetes e viver dos aluguéis. Nem o corte de 0,5% na alíquota de quem ganha até um salário mínimo o atrai para a formalidade.

Natália Albuquerque, 29 anos, é professora de Matemática há sete nas redes pública e privada do Rio, Natália dá aulas de segunda a sexta-feira, das 7h às 21h. No tempo que sobra, planeja as 44 aulas que leciona por semana, além de corrigir provas, trabalhos e atualizar fichas dos alunos. Com a reforma, terá de trabalhar mais tempo e só poderá se aposentar aos 60 anos. Na regra atual, não há idade mínima para professor da iniciativa privada. Para ela, bastaria contribuir por 25 anos.

A reforma prevê contribuição para os trabalhadores rurais e idade de 60 anos para aposentadoria, e não mais 55. Lucindo Alves, 47 anos, é assentado da reforma agrária em Goiás. Mora com a mulher, o filho de três anos e a mãe, de 80 anos, que é aposentada rural. Produz feijão, arroz, abóbora, além de ter alguns animais. Sua produção é praticamente toda voltada para sua sobrevivência e a da família. A produção excedente é rara, portanto não possui renda mensal fixa.

Sair da versão mobile