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As paralisações das forças policiais, ainda que proibidas, não são novidade no Brasil, mas agora estão revestidas de uma maior articulação política

Maioria dos policiais que estavam amotinados no 18º Batalhão da Polícia Militar decidiu pelo fim da manifestação que durou 13 dias. (Foto: Wandemberg Belém/SVM)

O motim de parte da Polícia Militar no Ceará, encerrado neste domingo (01), expôs fatores comuns a integrantes das forças de segurança de diversos estados brasileiros: a disputa por protagonismo político e a insatisfação generalizada. Ao mesmo tempo em que brigam por aumentos salariais e melhores condições de trabalho — no caso cearense, as reivindicações extrapolaram para a paralisação, proibida pela Constituição —, policiais militares almejam expandir a ocupação de ambientes institucionais e, consequentemente, incorporar mais força à mesa de negociações.

Paralisações das forças policiais, ainda que proibidas, não são novidade no Brasil, mas agora estão revestidas de maior articulação política. A ampliação do espaço de policiais civis e militares no Legislativo é causa e pode ser consequência da maior força de mobilização dos servidores de segurança. Entre as eleições de 2014 e 2018, cresceu de 12 para 59 o número de parlamentares egressos das forças policiais no Congresso e nas assembleias legislativas estaduais, um aumento de 391%.

Um levantamento do jornal O Globo identificou insatisfações em pelo menos 14 estados — em parte deles, policiais com conexões políticas conduzem as conversas. Em meio à conjuntura complexa, o governo federal monitora os movimentos pelo país, mas descarta, por ora, a possibilidade de que o motim do Ceará se espalhe por outras unidades da Federação.

Na sexta-feira, o presidente Jair Bolsonaro prorrogou por mais uma semana a permanência das Forças Armadas no Ceará. Presidentes de associações policiais por todo o país se dizem frustrados com o que consideram falta de engajamento do governo federal na causa policial e enxergam um distanciamento em relação ao discurso de Bolsonaro na campanha que o elegeu — com o apoio de boa parte dessas associações.

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Enquanto isso, o Palácio do Planalto se equilibra: tenta evitar que a violência se agrave no Ceará, mas a uma distância segura para que a crise não desembarque em Brasília. Não confronta diretamente o grupo amotinado, mas sinaliza que a postura não é a que se espera de um militar — função que coube ao ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, que, em visita ao estado, lembrou que a paralisação afronta o texto constitucional.

Policiais militares à frente das negociações com governos estaduais reclamam da falta de diálogo com as autoridades, mas afirmam que o motim é uma hipótese distante na quase totalidade dos estados consultados pelo GLOBO. A avaliação feita pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, indica o mesmo cenário.

— Estamos acompanhando a situação no país inteiro. Esse problema (a paralisação) é localizado no Ceará. Eventualmente, se houver problema fora (do Ceará), vai ser cuidado. Não se justifica a antecipação desse tipo de problema, como alguns (críticos) têm colocado. O governo federal está atento e está observando — disse o ministro.

As circunstâncias também comuns a grande parte dos estados, como crise econômica e governadores em atrito com Bolsonaro, fragilizam a posição das autoridades estaduais, emparedadas sob os pontos de vista fiscal e político. O presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, identifica uma “migração de força policial para a política”:

— Hoje, se o policial quer ser candidato, só se afasta se for eleito. Não existem regras de quarentena, o que cria uma zona complexa. A polícia é uma instituição de Estado ou está a serviço de uma causa? É legítimo que policiais queiram se candidatar, mas com auditoria e regras que evitem conflito de interesses.

Para Lima, a forte convergência de princípios entre os policiais e o governo federal fortalece a categoria no cenário político. O diagnóstico desse “empoderamento” não é compartilhado pelas lideranças policiais.

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