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As sementes do futuro

A semente representa o início de algo que ainda não pode ser plenamente visto. Ela carrega potencial. (Foto: GAI Media)

Recentemente, tive a honra de integrar o grupo de jurados de um concurso de contos promovido entre estudantes das escolas de Garopaba, em Santa Catarina. A iniciativa integra a Mostra Lutz, um programa de sensibilização e educação socioambiental que há 25 anos leva reflexão, conhecimento e consciência ecológica à comunidade escolar do município.

Foi durante a leitura desses contos que encontrei uma frase que me fez interromper a avaliação por alguns instantes. Em uma das histórias, um estudante escreveu: “Não herdamos a Terra de nossos pais; estamos pegando emprestado de nossos filhos.”

A frase não era o tema central do conto, mas permaneceu ecoando em minha mente. Terminada a leitura, fui pesquisar sua origem. Descobri algo curioso: embora seja amplamente conhecida e frequentemente utilizada em debates sobre sustentabilidade, ela não possui um autor comprovadamente identificado. Sua origem costuma ser associada à sabedoria ancestral dos povos indígenas da América do Norte, que compreendiam a relação entre ser humano e natureza a partir de uma perspectiva de continuidade entre gerações.

Independentemente de quem a tenha pronunciado pela primeira vez, a mensagem permanece poderosa. Ela nos convida a abandonar a ilusão de que somos proprietários do planeta para reconhecer que somos apenas seus guardiões temporários.

Ao abrir cada conto, escrito por estudantes do ensino fundamental — jovens autores que ainda preservam o encantamento e a capacidade de sonhar tão característicos da infância — imaginava encontrar apenas exercícios literários. Encontrei muito mais do que isso.

Encontrei imaginação, sensibilidade e esperança.

Muitos textos apresentavam florestas encantadas, rios que falavam, animais que ensinavam lições e personagens que descobriam a importância de cuidar da natureza. E um elemento aparecia repetidamente em diferentes histórias: a semente.

A presença dessa imagem não me pareceu casual. A semente representa o início de algo que ainda não pode ser plenamente visto. Ela carrega potencial. Carrega futuro. Exige cuidado, tempo e paciência para se transformar em algo maior.

Talvez por isso ela seja uma metáfora tão adequada para a educação ambiental.
Os resultados de um processo educativo raramente são imediatos. Eles amadurecem lentamente. Muitas vezes, quem planta não chega a colher. Ainda assim, o ato de plantar continua sendo indispensável.

Foi impossível não associar essa reflexão à própria trajetória da Mostra Lutz.
Em 2026 celebramos os 100 anos de nascimento de José Lutzenberger, um dos mais importantes ambientalistas brasileiros. Muito antes de a sustentabilidade tornar-se tema frequente em empresas, governos e universidades, Lutzenberger já alertava para a necessidade de harmonizar desenvolvimento econômico e preservação ambiental. Sua voz ajudou a despertar consciências em uma época em que a defesa da natureza era frequentemente tratada como exagero ou obstáculo ao progresso.

Lutzenberger nos deixou em 2002. No entanto, algumas ideias sobrevivem aos seus autores. Permanecem vivas quando inspiram novas ações e novas gerações.

É justamente isso que a Mostra Lutz representa.

Realizada com o apoio da Secretaria Municipal de Educação de Garopaba, da Fundação Gaia e do Projeto Gaia Village, a iniciativa transformou-se em uma referência de educação ambiental continuada. Ao longo de um quarto de século, milhares de estudantes tiveram contato com atividades, debates, produções artísticas e experiências que ajudaram a fortalecer o vínculo entre conhecimento, cidadania e responsabilidade ambiental.

Talvez não existam indicadores capazes de medir integralmente o impacto de um trabalho como esse. Mas é difícil acreditar que 25 anos de dedicação não tenham produzido resultados concretos. As mudanças mais profundas raramente aparecem em estatísticas. Elas se revelam na forma como uma comunidade passa a enxergar o mundo, valorizar seus recursos naturais e fortalecer sua relação com a paisagem que a cerca. Em Garopaba, cidade marcada pela proximidade entre mar, lagoas, morros e áreas de preservação, essa consciência ambiental parece fazer parte da identidade local — e talvez esse seja um dos frutos mais valiosos das sementes plantadas ao longo de tantas décadas.

Enquanto lia os contos, tive a sensação de estar observando alguns desses resultados.

Em muitos textos já era possível perceber um olhar atento para a natureza e uma compreensão intuitiva de que não estamos separados dela. Somos parte dela. Dependemos dela. E nosso futuro estará diretamente ligado à capacidade de preservar os ecossistemas que sustentam a vida.

Precisamos de mais iniciativas assim. Precisamos de mais espaços que incentivem jovens a refletir sobre o mundo que desejam construir. A educação ambiental não deve ser vista como um complemento, mas como uma ferramenta essencial para formar cidadãos capazes de tomar decisões conscientes em uma sociedade cada vez mais complexa.

Ao concluir a leitura dos contos, compreendi que a frase encontrada em uma daquelas histórias não falava apenas sobre responsabilidade ambiental. Falava sobre legado.

Se estamos realmente pegando a Terra emprestada de nossos filhos, nossa missão é devolvê-la em melhores condições do que a recebemos.

E isso, como os estudantes de Garopaba tão bem demonstraram, começa sempre da mesma forma: com uma semente.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)

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