Rosa Aramburo chegou ao último ano do curso de medicina com notas altíssimas e ótimas avaliações de seus professores. Seus orientadores previram que ela não teria dificuldade em conseguir uma vaga em um programa cobiçado de residência médica. Então o presidente Donald Trump anunciou o fim do programa governamental instituído na era de Obama que deu autorizações de trabalho a Aramburo e a quase 700 mil outros imigrantes não documentados criados nos Estados Unidos.
“Não se surpreenda se você não for chamada para nenhuma entrevista”, um orientador lhe disse. Ela recebeu dez convites, depois de candidatar-se a 65 vagas. Mas quando Aramburo se preparava para definir suas três primeiras opções, na semana passada, o Congresso rejeitou projetos de lei que teriam autorizado a permanência dela e outros “dreamers” (sonhadores em português, imigrantes sem documentos levados aos EUA quando crianças) nos Estados Unidos, colocando em dúvida uma trajetória profissional que um ano atrás parecia estar tão definida.
Empregadores e universidades que nos últimos seis anos abraçaram os beneficiados pelo Daca, o programa governamental, estão procurando urgentemente uma maneira de preservar o programa. Estão fazendo lobby junto ao Congresso, que está profundamente dividido, pagando as taxas de renovação de autorização de seus funcionários e alunos e procurando outras opções legais –possivelmente um visto ou residência de trabalho, por meio de cônjuges ou familiares que sejam cidadãos americanos.
Algumas empresas cogitam em mandar funcionários para fora do país. Eles aguardam o resultado de uma contestação judicial da decisão tomada pela administração Trump de encerrar o programa Daca. A ação judicial proporcionou uma trégua temporária aos jovens beneficiados pelo Daca e lhes permitiu renovar suas autorizações de trabalho, por enquanto. A Suprema Corte pode decidir ainda nesta sexta-feira (23) se vai intervir no caso.
Em todo o país, mais de 160 beneficiados pelo Daca lecionam em escolas em áreas de baixa renda. Trinta e nove trabalham para a Microsoft, 250 para a Apple e 84 para a Starbucks. Para seus empregadores, os jovens imigrantes são profissionais qualificados que falam várias línguas e em muitos casos são altamente motivados e têm alta performance. Pesquisas de opinião indicam que o público americano é fortemente a favor de sua permanência no país.
Em parte com base nesses dados, muitos beneficiados pelo Daca dizem que acreditam que os EUA vão continuar a protegê-los, apesar de um alto funcionário da Casa Branca ter indicado que Trump e legisladores republicanos chaves querem tratar de outros assuntos. Especialistas em recursos humanos avisam que os empregadores podem ser multados ou detidos se mantiverem funcionários em suas folhas de pagamento depois do fim da vigência de suas autorizações de trabalho.
E, embora a Casa Branca tenha dito que os imigrantes jovens que perdem as proteções do Daca não se tornarão alvos imediatos de deportação, a ICE (a agência de imigração) diz que qualquer pessoa que esteja no país ilegalmente pode ser detida e possivelmente deportada. “Recebi e-mails dizendo ‘adoramos trabalhar com você’”, comentou Aramburo, 28 anos, numa manhã recente quando visitava pacientes numa UTI de neurologia. “Mas fico pensando: ‘E se eu não conseguir terminar meu curso?’”.
Quase cem beneficiados pelo Daca são estudantes de medicina em universidades como Harvard, Georgetown e a escola Stritch de medicina da Universidade Loyola de Chicago, que em maio deste ano vai diplomar seus cinco primeiros “sonhadores”, incluindo Rosa Aramburo. A universidade Loyola, que é católica, mudou sua política de admissões para receber estudantes beneficiados pelo Daca assim que o presidente Obama – frustrado pelo fato de o Congresso não ter aprovado uma lei de imigração — anunciou em 2012 que daria autorizações de trabalho a imigrantes jovens.
Trump e outros da linha dura em relação à imigração criticaram o programa, dizendo que era um excesso executivo. Trinta e dois alunos com Daca estão matriculados na escola Stritch, o maior número de qualquer escola de medicina no país. A maioria é natural do México, mas há também estudantes levados aos EUA de 18 outros países, incluindo Paquistão, Índia e Coreia do Sul. A escola ajudou os estudantes a obter mais de US$ 200 mil (R$ 649 mil) cada um em empréstimos para custear a universidade. Para poder emprestar o dinheiro sem juros, alguns concordaram em trabalhar em regiões pobres e rurais onde há uma carência aguda de médicos.
