O atirador que tentou invadir um jantar de gala com a presença do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acreditava que o Serviço Secreto estava mal preparado para proteger altos integrantes do governo, segundo escritos deixados pelo próprio suspeito. Ele não foi o único: algumas das mais de 2,5 mil pessoas que participavam do evento também avaliaram ter sido surpreendentemente fácil para o californiano Cole Allen, de 31 anos, avançar em direção ao salão de baile onde o republicano estava junto de seu gabinete. As reações diante do ocorrido levantaram dúvidas sobre se a segurança estava suficientemente preparada para proteger o mandatário em uma era de ameaças crescentes e surtos de violência política, embora autoridades tenham insistido que as medidas funcionaram como o previsto.
— Temos que aprender com o que aconteceu ontem à noite, e vamos, mas a primeira conclusão é a de que o sistema funcionou — disse no domingo o secretário de Justiça interino Todd Blanche, que também estava presente. — Nós detivemos o suspeito.
O hotel Washington Hilton, localizado a cerca de 2,4 km ao norte da Casa Branca, há décadas sedia o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca por sua capacidade de receber grandes públicos e pela familiaridade do Serviço Secreto em garantir sua segurança. Ainda assim, convidados disseram ter conseguido entrar no local apenas mostrando um ingresso para o jantar. Os convites eram conferidos por funcionários, mas não eram escaneados, e não havia verificação de identidade. Convidados puderam acessar o lobby e os andares inferiores do hotel sem passar por escaneamento de segurança, sendo submetidos a detectores de metal somente antes de entrar no salão onde o jantar era realizado.
“Não consigo acreditar no quão fraca estava a segurança no jantar dos correspondentes da Casa Branca esta noite. Ao entrar, ninguém pediu para inspecionar visivelmente meu ingresso e nem solicitou minha identificação com foto. Bastava mostrar algo que parecesse um ingresso e isso era suficiente”, escreveu Kari Lake, ex-candidata republicana ao governo e ao Senado do Arizona, no X.
Além de Donald Trump e do vice-presidente JD Vance, estavam presentes no evento o presidente da Câmara, Mike Johnson, e os secretários de Estado, Marco Rubio, do Tesouro, Scott Bessent, e da Defesa, Pete Hegseth. A concentração de líderes de alto nível em um único salão deixou o país excepcionalmente vulnerável enquanto o suspeito avançava no local antes de ser detido. Em um cenário extremo, isso poderia ter levado à transferência do poder presidencial dos Estados Unidos para o senador republicano Chuck Grassley, de 92 anos, que não estava no evento e ocupa a terceira posição na linha de sucessão.
— Pela minha experiência, isso poderia ter sido um massacre — disse ao New York Times Paul Eckloff, que integrou a equipe de segurança de Trump durante seu primeiro mandato (2017-2021). — [Mas] não foi, porque profissionais armados e treinados ficaram entre o atacante e um salão cheio de pessoas. A pergunta não é como ele chegou perto. A pergunta que as pessoas deveriam fazer é: por que todos estão vivos? É porque o plano de segurança funcionou.
Com mais de 1,1 mil quartos e suítes, 47 salas de reunião e quatro restaurantes, o hotel no coração da capital americana não pode ser completamente isolado para um evento de alta segurança. Um desses quartos foi reservado pelo atirador, que fez check-in no dia anterior ao ataque, segundo autoridades, o que lhe deu ainda mais conhecimento da estrutura do hotel. Allen teria viajado de trem de Los Angeles a Chicago e depois a Washington. Em uma série de escritos deixados pelo suspeito, ele diz que entrou no hotel com várias armas e que “ninguém ali sequer considerou a possibilidade de que eu pudesse ser uma ameaça”:
“O que diabos o Serviço Secreto está fazendo?”, escreveu ele, acrescentando: “Eu esperava câmeras de segurança em cada curva, quartos grampeados, agentes armados a cada três metros, detectores de metal por todos os lados. O que encontrei (vai saber, talvez estejam brincando comigo!) foi nada. A segurança do evento está toda do lado de fora, focada em manifestantes e nas pessoas que chegam naquele momento, porque aparentemente ninguém pensou no que acontece se alguém faz check-in no dia anterior.”
— Ele não venceu o plano de segurança na noite do jantar. Ele venceu no dia em que fez a reserva — disse ao WSJ Jason Pack, ex-agente do FBI. — Eles construíram aquele perímetro para deter um Exército. No fim, tudo que ele precisava era de uma chave de quarto. Com informações do portal O Globo.
