Após dois anos da tragédia de Mariana, em Minas Gerais, atingidos e autoridades denunciam a demora na reconstrução das casas. Em coletiva de imprensa neste sábado (4), a Comissão de Atingidos da Barragem de Fundão e promotores do Ministério Público de Minas Gerais criticaram o projeto de reassentamento feito pela Fundação Renova, financiada pela empresa Samarco. Segundo eles, a proposta da companhia prevê a reconstrução dos imóveis em área de risco.
Na última quarta-feira, o Ministério Público entrou com uma nova ação para garantir o reassentamento e a participação dos atingidos nos projetos.
“Eles querem impor modelo de casa, impor reconstrução em área de risco. Respeite a participação das vítimas. A nova ação é para regular e garantir o reassentamento e a participação das vítimas”, disse o promotor do Ministério Público, Guilherme Meneghin.
A Comissão de Atingidos defende que a população tem direito de ser reassentada em um local seguro.
Desde 2015, o Ministério Público estadual já protocolou 19 ações na Justiça, sendo 17 ações civis e 2 criminais. Além disso, órgãos federais avaliam e acompanham o impacto da lama nos animais da região.
Em nota, a Fundação Renova, instituição responsável pela reconstrução e financiada pela Samarco, informou que nas cidades de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e em Barra Longa, onde vivia a comunidade de Gesteira, os terrenos e projetos urbanísticos foram apresentados às populações e aprovados pela maioria.
Em Bento Rodrigues, no entanto, a Renova disse que o projeto passou por ajustes a pedido dos órgãos reguladores. Então, duas alternativas de ocupação serão apresentadas para a comunidade. Ainda segundo a instituição, a entrega das residências e dos equipamentos públicos de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira está prevista para o primeiro semestre de 2019.
Vilarejos não saíram do papel
Enquanto a imagem de destruição dos três distritos atingidos pelo rejeito da mineradora Samarco – Bento Rodrigues, Paracatu e Gesteira – permanece viva na memória e nas antigas comunidades soterradas dois anos depois da tragédia de 5 de novembro de 2015, ainda não é possível vislumbrar as novas vilas a serem construídas. Os desenhos urbanísticos estão em fase final de elaboração.
O topo do morro ainda guarda a histórica igreja de Nossa Senhora das Mercês intocada, o único vestígio de alegria que os moradores sempre citam ao contar sobre o local antes que a lama da mineradora Samarco soterrasse a tranquilidade da região.
O sentimento estampado nas ruínas agora é outro: raiva, nas pichações feitas na parede da Escola Municipal de Bento Rodrigues contra a Samarco. Dor, na encruzilhada cercada de cruzes de madeira instaladas pelos moradores, onde também foi colocada uma placa nova em folha, com uma mensagem tardia: orientações de emergência para o caso de um desastre.
O que restou da histórica capela de São Bento, de 1718, está embaixo de um galpão, ao lado das ruínas do Bar da Sandra, famoso para os que faziam turismo na região. As casas que não foram atingidas pela lama acabaram condenadas pela Defesa Civil e tiveram janelas, portas e outros itens saqueados ou retirados pelos moradores. Mas as maiores cicatrizes da tragédia são os cinco mortos do vilarejo – quatro moradores e uma visitante.
Desde então, os atingidos se mudaram para casas mobiliadas e alugadas pela Samarco, até que as vítimas sejam reassentadas em novos vilarejos. São 362 famílias de Bento Rodrigues e Paracatu, distritos de Mariana, e Gesteira, de Barra Longa. O choque cultural e a separação da vizinhança gerou sofrimento para os moradores.
A igreja está envolta por tapumes, mas ainda é possível ver até onde chegou o rejeito. Foi necessário um ano para conseguir entrar no templo católico, já que todo o entorno também estava soterrado. A ponte da comunidade – parte dela, construída no alto, permaneceu inalterada – havia caído depois que um caminhão passou arrastado pela lama, mas uma nova estrutura já está de pé.
A Fundação Renova, financiada pela Samarco e orientada por um comitê de órgãos públicos e sociedade civil, é responsável por reassentar os atingidos. Foi estabelecido um cronograma para reconstrução das vilas, que foram planejadas junto com as comunidades, para que tenham a mesma organização de vizinhança e espaços públicos. Mas o processo de licenciamento ambiental para construção ainda não foi pedido. O último terreno a ser adquirido, para abrigar os atingidos de Gesteira, ainda está em negociação.
A previsão é entrar com o pedido de licenciamento no fim do ano. “O início da construção será no primeiro semestre de 2018 e a finalização, como previsto, será no primeiro semestre de 2019. Todos os esforços de contratação para 24 horas de obras vão ser feitos para que não haja nenhum atraso no prazo final”, garante Azevedo.
