Antônio Álvares Pereira Coruja e Machado de Assis voltarão a falar com o público — desta vez, por meio de avatares criados com inteligência artificial. Os dois escritores serão os personagens centrais da exposição CAIXA de Escritores, que ficará aberta de 29 de outubro a 29 de novembro, na Galeria Xico Stockinger, da Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre.
Com patrocínio da CAIXA e apoio institucional do MACRS (Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul), a exposição integra o projeto criado e concebido pela Buenas Ideias e produzido pela Voz Cultural.
A mostra CAIXA de Escritores aproxima memória, ficção e vida cotidiana por meio de escritores que ou foram clientes da Instituição, escreveram sobre ela ou mantiveram outros vínculos com sua trajetória ao longo de 165 anos.
Na Galeria Xico Stockinger, o público encontrará duas grandes estruturas dedicadas a Coruja e Machado de Assis. Concebidas como caixas que se abrem e instauram o próprio espaço expositivo, elas reúnem textos estruturados por Eduardo Bueno, fragmentos literários, objetos, biografias, imagens e elementos simbólicos ligados aos autores.
Ao se aproximar de cada estrutura, o visitante encontrará uma presença digital e quase fantasmagórica do escritor. Os avatares de Coruja e Machado, produzidos com recursos de inteligência artificial, darão voz aos textos e apresentarão a exposição, criando um diálogo entre o público do presente e dois autores que viveram no século XIX.
Uma conversa fora do tempo
Para o curador da mostra CAIXA de Escritores, André Severo, o caráter lúdico é um dos pontos centrais da exposição. A proposta é fazer com que o visitante não apenas leia informações sobre os escritores, mas tenha a sensação de se aproximar deles e de seus universos.
“É um convite ao diálogo com esses autores, uma conversa fora do tempo, já que todos eles já partiram. Como estamos dentro de uma Feira do Livro, também é um convite à leitura. A exposição brinca com o lúdico para propor uma leitura do presente em diálogo com o passado”, afirma Severo.
A espacialidade da mostra nasce da própria palavra “caixa”. Em vez de funcionar como um objeto fechado, destinado apenas a guardar documentos, cada estrutura se abre e passa a abrigar vozes, textos, imagens e lembranças. No interior e no verso dos módulos, os elementos relacionam a trajetória dos autores, suas obras e a memória da CAIXA, a instituição bancária.
Coruja e Machado não aparecem apenas como personagens históricos. Cada caixa foi pensada como um microcosmo dedicado ao autor, permitindo que o público se aproxime de sua escrita por diferentes caminhos. Elementos visuais monocromáticos condensam simbolicamente os universos literários apresentados, enquanto os avatares transformam a leitura em experiência audiovisual.
A exposição não segue uma narrativa linear. O visitante poderá construir o próprio percurso entre documentos, ficções e referências biográficas. Cada elemento guarda uma história particular; reunidos, eles formam um arquivo espacial de encontros entre literatura, instituição e sociedade brasileira.
Do primeiro cliente ao maior nome da literatura brasileira
A escolha de Coruja e Machado de Assis para ocupar as duas estruturas centrais estabelece um encontro entre dois personagens fundamentais do CAIXA de Escritores, explica Eduardo Bueno, idealizador do projeto.
Nascido em Porto Alegre em 1806, Antônio Álvares Pereira Coruja é reconhecido como o primeiro cronista da cidade. Professor, historiador e escritor, tornou-se também o primeiro cliente da CAIXA quando a instituição abriu suas portas ao público, em 4 de novembro de 1861, no Rio de Janeiro.
Coruja é autor de “Antigualhas: reminiscências de Porto Alegre”, obra na qual recupera a infância, os costumes, as escolas, as ruas e os personagens da capital gaúcha na primeira metade do século XIX. O livro ganhará uma nova edição durante a Feira, com distribuição gratuita ao público e às bibliotecas do Rio Grande do Sul.
Machado de Assis, por sua vez, levou a instituição para o campo da ficção e estabeleceu uma relação duradoura como cliente: manteve por anos uma caderneta de poupança, que ao morrer, legou para a sua sobrinha neta, Laura. Em seus textos, questões econômicas, sociais e humanas aparecem atravessadas por ironia, observação do cotidiano e análise das relações brasileiras.
As duas caixas permitem observar formas diferentes de vínculo com a CAIXA: de um lado, Coruja, primeiro cliente e pioneiro da crônica porto-alegrense; de outro, Machado, nome central da literatura brasileira, que incorporou a instituição ao universo de sua vida e de sua escrita.
Os 16 escritores representados
Embora Coruja e Machado de Assis ocupem as duas estruturas principais, os 16 escritores enfocados pelo projeto estarão representados no espaço expositivo. A mostra reúne autores de diferentes gerações, estilos e maneiras de olhar para o Brasil.
Além dos dois protagonistas, integram a seleção Lima Barreto, Coelho Neto, Benjamin Costallat, Rubem Braga, Carlos Heitor Cony, Nelson Rodrigues, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Helena Ferraz, Augusto Frederico Schmidt, Inglês de Sousa e Austregésilo de Athayde Carlos Drummond de Andrade e Luis Fernando Verissimo.
Os mesmos 16 nomes ganharão escala pública nos painéis instalados no tapume das obras da CAIXA Cultural, no Cine Imperial, outro núcleo do projeto CAIXA de Escritores, no Centro Histórico. Juntas, essas presenças revelam como a CAIXA atravessou a literatura e a vida brasileira durante diferentes épocas.
Arena receberá debates e encontros
A Galeria Xico Stockinger também terá uma arena destinada a palestras, debates e discussões relacionados à exposição. O espaço, instalado dentro da própria galeria e com capacidade para 64 pessoas, ampliará a experiência da visita e permitirá encontros sobre literatura, memória, história urbana, inteligência artificial e os vínculos entre os autores e a CAIXA.
Na programação, já estão confirmados nomes como Martha Medeiros, Paula Taitelbaum, Leticia Wierzchowski, Pedro Verissimo, Heloisa Pires Lima, Fernanda Verissimo, Eliane Marques, Chico Botelho, Luís Augusto Fischer, Katia Suman e Vitor Ramil.
A exposição será ainda um dos pontos do Circuito CAIXA de Escritores, série de 60 visitas mediadas realizadas durante a Feira do Livro. O percurso partirá da galeria CAIXA na Praça, montada no acesso do Edifício Querência (acesso pela Av. Sete de Setembro), passando pelos painéis do Cine Imperial e terminando na Galeria Xico Stockinger.
Ao concluir o circuito, cada participante receberá gratuitamente um exemplar da nova edição de Antigualhas, prolongando, por meio da leitura, o encontro iniciado na exposição.
Serviço
Exposição CAIXA de Escritores
Período: de 29 de outubro a 29 de novembro de 2026
Local: Galeria Xico Stockinger – Casa de Cultura Mario Quintana
Endereço: Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico, Porto Alegre
Horário: diariamente, das 10h às 19h
Entrada: gratuita
Programação da arena: disponível em @caixadeescritores
